• Guilherme Cardoso

A revolução na Igreja


Em dezembro de 1961, o papa João XXIII lança o Concílio Vaticano II,, que revoluciona os procedimentos e rituais da Igreja Católica.

Missa que era celebrada no Rito Romano, o latim, passa a ser no idioma local. Fiéis passam a ter maior participação na missa, o padre se vira para o povo para ministrar a Santa Missa.

O catolicismo se aproxima mais das outras religiões, Jesus Cristo volta a ser o centro das atenções das igrejas, diminuem as exposições dos santos, sexo continua proibido antes do casamento, padres são liberados de usar batina, podem usar trajes civis. Continuam celibatários, impedidos de se casar.

Nesse tempo, década de 60, surgem outras mudanças na vida religiosa.

Padres passam a conviver mais próximos das pessoas, diminui o rigor das clausuras nos conventos, seminaristas, os estudantes para serem padres têm mais liberdade com a comunidade.

Descobrem que há outro mundo aqui fora, diferente daquele entre paredes, fechado, vivido desde o seminário.

Na Pompeia, convento dos capuchinhos, são evidentes as mudanças vindas com as novas regras do Vaticano.

Noviços, jovens estudantes, candidatos a padres, em vias de se formarem, de repente aparecem nas horas dançantes da quadra do colégio, tomam cerveja com a gente, dançam com as garotas, descobrem o prazer da vida aqui fora E muitos largam a batina.

Seminaristas, diáconos, estudantes quase formados, padres experientes, alguns maduros, idades avançadas, decidem deixar o sacerdócio. Descobriram o mundo.

A debandada foi grande. De alguns que largaram a batina me lembro bem.: frei Roberto, frei Mateus, frei Elias, jogavam futebol conosco, não podiam sequer vestir calção, mostrar as pernas, agora arranjam namoradas, fazem filhos, logo se casam.

Frei José, vigário da Matriz de N.S.do Rosário da Pompeia, admirado por todos, casou Miguel e minha irmã Aparecida em 1959, casou também a Lurdinha com o José Moreira, o fotógrafo oficial da paróquia em 1963, de repente abandona tudo, encanta-se por uma beata, casa, tem muitos filhos, esquece a vida religiosa. Espanto geral na comunidade.

Muitos se deram bem na vida fora da igreja. Uns viraram advogados, professores, até comerciantes bem sucedidos. Outros não tiveram a mesma sorte.

A maioria dos seminaristas e mesmo sacerdotes, conheciam pouca coisa da vida fora das igrejas, dos conventos e das clausuras, aquele regime religioso duro, onde a maior parte do tempo era dedicada às leituras bíblicas e às reflexões.

Naquela época, os jovens, ainda crianças de 8, 10 anos, eram convidados ou enviados pelos pais aos conventos, passavam a Infância e adolescência no seminário, longe da família, de tudo, regime duro, privações, tudo era controlado, não havia televisão e o rádio era usado só para ouvir músicas clássicas e religiosas.

Até se formarem, serem consagrados ao sacerdócio, os estudantes seminaristas viviam a maior parte da vida em clausura, fechados para o mundo, muita reza, estudos e penitência todos os dias.

O que mais tarde vinham a saber do mundo cá fora, era quando já adultos, quando já padres, através da convivência comunitária e das confissões dos fiéis.

Com o afrouxamento dos rigores da Igreja Católica na década de 60, muitos religiosos abandonaram a batina, se deslumbraram com o mundo cá fora, o mundo real, e por falta de experiência, alguns seguiram caminho errado, nada deu certo, não era o que pensavam.

Casamentos de padres foram desfeitos, a disputa por empregos era grande eles não conheciam isso,, alguns se desesperaram, buscaram conforto na bebida, sentiram como é dura a vida no mundo real, de muito consumismo e pouca fé.

Foi um tempo de revoluções. Na Igreja e no mundo.

Tempos antigos, tempos bons, tempos que não voltam mais.

0 visualização