• Guilherme Cardoso

Ah, Aqueles Tempos...


Ah! O tempo. Parece que faz tanto tempo né? Talvez uns 100, 200 anos, mas não é tanto tempo assim, não viu? Foi ontem mesmo, um pouco mais de 50 anos.

O problema é que tudo mudou tão depressa, tem tanta tecnologia.


Era uma época e que tudo andava muito devagar, as coisas demoravam a acontecer.


Era os anos 60, era o tempo que a gente contemplava a lua, via São Jorge nela, nuvens formando casas e coisas, a gente contando os dias, os meses e as estações na Folhinha Mariana na parede.


O tempo não se informava na televisão, como hoje, nem no rádio. A brisa seca, ou úmida, ou o vento que passava pela janela, dizia se vinha chuva ou sol. Bastava molhar o dedo indicador e pôr para cima que a gente sabia se ia ter sol ou ia chover


Era o Tempo da Inocência viu? O tempo de amarrar cachorro com linguiça, voltar para casa bem cedo, ter medo de assombração.


O pobre naquele tempo, era pobre mesmo, vivia em barracão sem reboco, piso de terra e se sentia muito feliz. Pobre não fazia feira, nem supermercado, comprava na quitanda, tinha caderneta, trocava verduras com o vizinho.


Ninguém tinha muita coisa não, também não almejava nada além. Inveja era coisa rara, não havia desemprego naquela época, miséria, nem mendigos, e se eles existiam, quase não se via nas ruas.


Naquele tempo, era o Tempo de Sonhos, de ilusões, tempo de fazer poesias, as declamações, versos para a garota amada:


"Tua boca diz sim, teus olhos dizem não, quisera agora saber, o que diz seu coração".

"Menina bonita era aquela, lá do meu Parque Jardim, amava a todos do bairro, só não gostava de mim".


É, esse era um tempo muito bom. Era o Tempo dos Anos Dourados, dos anos 60.


Naquele tempo, namorar era só a noite, de terça, quinta, sábado e domingo, 19 às 22 horas, nem um minuto a mais. Namorados que se prezassem não se encontravam um com o outro fora da noite e fora da hora marcados. Se a gente cruzasse na rua com um namorado com a namorada, a gente mudava de caminho, desviava de calçada.


Para o homem, era tremendamente cafona, era a aceitação de que que estava dominado pela namorada que estava apaixonado. Naquela época, era preciso ser forte, ser machão.


Pegar na mão da moça por exemplo, levava quase um mês. Beijar então, nem pensar. O cinema era o melhor programa, era um ritual. No escurinho do cinema, a gente aproveitava para roubar aquele beijinho dela.


Os filmes eram românticos, cenas de amor, nada ousado, nada de cenas picantes. Diferente de hoje, novela das 6 por exemplo.


O vestido das moças era comprido, todo rodado, plissado, colar, relógio de pulso, sapatos Luiz XV. Os homens, de terno, gravata, camisa branca, tecido banlon, sapato preto bem engraxado, tênis jamais, era cafona, a gente chamava tênis de Quedes, somente para jogar Futebol de salão.


Havia serenatas pela madrugada, violão, pandeiro, sanfona e violino. Não se tinha medo de nada. Ladrão, roubava era galinha. A companhia da gente era a lua e a paixão.


Rapazes, 3 ou 4, cantavam debaixo da janela, quebrando o silêncio da noite. O temor mesmo era do pai da moça chegar de surpresa e despejar um balde de água fria em cima dos cantores. Isso é que era o medo da gente.


Dançar era o programa preferido. Corpo juntinho, rosto colado, palavras ao pé do ouvido. Os bailes eram nos fins de semana, nos salões dos clubes, nas quadras de esportes. As tardes dançantes eram nas casas de famílias, não tinha problema nenhum.


O ritmo era variado: valsa, samba- canção, bolero, depois veio o rock, o twist, o mambo, o iê,iê,iê,rei o chá,chá, chá. Tudo regado a copo de cuba libre e ponche, tirado de uma grande panela e servidos com uma concha, dessa de tirar feijão na panela de casa.


Naquele tempo, não se matava por amor, pelo contrário, morria-se por amor.


Morria-se de paixão, de beber, de sofrer. Amor não correspondido, levava lágrimas, a gente fazia versos, músicas e tomava muita cerveja e cachaça, e tinha tuberculose por tabela, hein? Que isolava as pessoas, matava. Que o diga o grande compositor Noel Rosa, que morreu de tuberculose em Belo Horizonte.



Aquele era o tempo dos troleibus, dos bondes e dos ônibus. Andar de táxi, era só em caso especial, casamento ou enterro. Ninguém tinha dinheiro para gastar. Era um tempo romântico, apenas de sonhos e ilusões. Tudo ainda estava para chegar e se transformar...

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