• Guilherme Cardoso

Antigamente, pobre era pobre mesmo.


Nas décadas de 50 e 60, pobre era pobre mesmo. Era quem não tinha absolutamente nada.


Não havia bolsa-família, auxílio-funeral, meia-entrada nos cinemas, nem ônibus de graça para idosos, nem seguro-desemprego, nem aposentadoria por idade. Também, não havia muita coisa a se desejar e consumir.


A economia brasileira era muito fraca, poucos bens materiais a se oferecer aos consumidores, e o crédito não era tão disponível e facilitado como agora. O governo interferia demais no consumo, para segurar a inflação e não permitia os empréstimos bancários a vontade e nem as prestações parceladas, a perder de vista.

Naquela época, no meu tempo de menino, não existia essa variedade de produtos supérfluos como agora, e que a gente dá aos filhos e netos, como iogurtes, refrigerantes, pizzas, sanduíches.


Lembro que havia a Coca-Cola, ainda recente, a Pepsi Cola também. Depois vieram o Guarapan, o Crush, a sodinha Gato-Preto e o guaraná Antarctica. A gente não bebia refrigerantes como hoje, de manhã, à tarde e à noite, a qualquer hora, com frio ou calor, especialmente junto às refeições. Por isso, essa quantidade de crianças gordas e diabéticas.


Era comum as crianças andarem descalças e por isso terem muitos vermes, como amebas e xistose. E para matar esses vermes, o jeito era tomar uma colher de sopa de querosene, a receita infalível dos nossos avós para combater a esquistossomose, popularmente conhecida como xistose. E para matar as lombrigas, uma vez por ano lá em casa, a gente tomava uma garrafinha de limonada purgativa. Tinha de ser em jejum pela manhã e horas depois, era correr para o banheiro, para expelir longas lombrigas.

O poder aquisitivo da população era baixo para os preços praticados naquela época. Picolés, sorvetes e chocolates eram só da Kibon, mas muito caros para nós. Quando criança, uma vez ou outra a gente tomava um refrigerante, chupava um picolé ou saboreava um chocolate. Não havia chupe-chupe, nem picolé feito em casa. Quase ninguém tinha geladeira.

Na Rua Tamoios, esquina de Avenida Afonso Pena, ao lado do antigo Cine Acaiaca, havia uma loja de chocolates finos e caríssimos, a Kopenhagen. Passar em frente era caminho obrigatório para ir na Pompeia, pois o ônibus ficava alí na Rua da Bahia, perto do viaduto Santa Tereza. O ritual diário era somente olhar as vitrines, com todos aqueles tipos mais sofisticados de balas e chocolates. Ver com os olhos, lamber com a testa.

Podia se considerar rico quem tinha casa própria, um telefone fixo e um carro, mesmo usado, e que era importado.

Até meados de 64, poucas pessoas faziam armazém, como se faz Supermercado hoje. O dinheiro era curto. As compras eram picadas, a granel e às vezes fiado, na caderneta. Se faltava um produto, tinha dinheiro, buscava na venda. Não se compravam verduras, que eram trocadas com os vizinhos. Frutas, a gente comia somente aquelas que nasciam naturalmente nos quintais das casas ou nos lotes vagos. Que eram muitos.

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