• Guilherme Cardoso

As peladas com os Capuchinhos


Era sagrado! Todas as quartas e sábados à tarde, e aos domingos pela manhã, depois da missa das 10 horas, havia pelada de futebol no campinho do convento dos padres capuchinhos da Pompeia.

Era o momento mais esperado pelos jovens frequentadores da JUF, viciados em jogar futebol.

Jogar com os seminaristas capuchinhos então, era o melhor momento de nossas vidas. Uma distinção, uma honra.

Mal comparando, a pelada das quartas-feiras era como se um time de futebol amador fosse convidado a treinar uma tarde com a seleção principal do Brasil.

Os Capuchinhos eram bons de bola. Muitos eram os jovens querendo a oportunidade de jogar com os estudantes capuchinhos. Poucos, porém, eram os escolhidos.

Quase sempre os mesmos. Eu, Ari, Isaias, Zé Luiz, João Gordo, Nem, Chita, Niltinho, Wilsão.

Não éramos escolhidos por que éramos os melhores, ou mais disciplinados e obedientes., ou os mais puxa-sacos.

Éramos sim os “fominhas”, os mais assíduos, os mais envolvidos nas atividades sociais e religiosas,e éramos também os mais brincalhões, contadores de histórias e piadas.

E os jovens seminaristas, coitados, sem conhecer nada do mundo cá fora, se deliciavam com a gente. Até invejavam nossas travessuras. E ter inveja era pecado! Ainda mais pra eles.

O campinho do convento era pequeno, de terra, traves sem redes, e jogavam seis contra seis. Duas horas de pelada, sem intervalo até para beber água. E ninguém reclamava de contusões, para não ser substituído.

Quem trabalhava durante a semana,obviamente não poderia jogar. Nem os padres permitiam. Mas a gente sempre arranjava um jeitinho.

Eu e o Niltinho trabalhávamos na mesma empresa, a Casa Abreu, que depois virou Centro Ótico,e faltávamos ao serviço todas as quartas-feiras. Na maior cara de pau.

As desculpas eram as mais esfarrapadas. Uma semana o pneu do ônibus furou, na outra a irmã adoeceu, na seguinte era uma dor de dente ou dor de barriga. Tudo para estar na pelada com os seminaristas.

Faltar um dia na pelada era o fim do mundo e o risco de perder a vaga. O emprego não. A gente procurava outro. Não havia muito desemprego naquela época, década de 60.

Antes de começar as peladas semanais, acontecia um pequeno ritual de expectativa.

Meia hora antes das quatro da tarde, a gente ficava debaixo das janelas dos quartos dos seminaristas esperando que um deles confirmasse se haveria jogo naquele dia.

Tudo era mistério. Às vezes, por decisão dos superiores, e para manter a ordem e a fortalecer a fé, os estudantes ficavam sem jogar futebol. A nossa frustração era grande. Acabava-se o dia, e seria longa a espera da pelada de domingo.

Às vezes, nem no domingo eles jogavam. Era o desastre total para nós, que tínhamos aquelas peladas como a melhor e principal diversão.

Os seminaristas capuchinhos eram bons de bola, habilidosos e com um detalhe especial: jogavam descalços e com batina.

Frei Roberto, Frei Elias, Frei Marcos, são alguns nomes de seminaristas que me lembro.

Eles colocavam a bola entre as pernas, debaixo da batina e tirar a bola de seus pés, debaixo da batina era uma tarefa das mais difíceis.

O rigor da instituição não permitia que os seminaristas ficassem de calções ou sem camisa, mesmo se o calor fosse forte, e mostrassem o corpo. E mesmo num ambiente somente de homens.

Os seminaristas capuchinhos raramente perdiam uma partida. Em 10 disputas de duas horas cada, nós ganhávamos no máximo umas duas. O resto era de goleada.

Mas era uma diversão imperdível naqueles anos 60.

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