• Guilherme Cardoso

BH e a Pompeia nos anos 60


Belo Horizonte nos anos 60 ainda era uma cidade muito rural. Bairros como a Pompeia ainda tinham muitos espaços livres, muita mata e casas simples, com lotes grandes e muita plantação.

Naquele tempo, era comum as famílias terem horta no fundo de casa para consumo próprio e trocas com os vizinhos.

Hortaliças como couve, alface, almeirão, mostarda, agrião não se vendiam nos armazéns. Tomate, repolho, vagem e algumas frutas como banana, abacate, manga, e goiaba também cresciam e alimentavam os moradores.

Não havia muitas variedades de carne nos açougues da época como hoje. Filé mignon era peça rara e super cara, poucos tinham acesso. As carnes mais macias era chamadas de carne de primeira, e a maioria das pessoas comiam mesmo eram as carnes de segunda e de terceira.

A gente que não tinha muitos recursos financeiros comia mesmo era dobradinha, também conhecida como bucho, suan de boi e carne de porco quando algum vizinho matava um porco e distribuía para várias famílias.

Nas tardes das sextas-feiras o Frigorífico Perrela, que tinha um grande matadouro alí na Av.dos Andradas esquina com Av.do Contorno, quando fazia a limpeza semanal, distribuía, na verdade jogava fora pedaços de língua de boi, sangue, coração de boi, bucho, a dobradinha, miolo de boi, fígado de boi, esse que hoje se paga caro nos açougues, e que não se vendiam. Eram restos do boi.

As pessoas catavam aquilo no pátio do frigorífico, colocavam dentro de uma sacola de pano, o embornal, e chegando em casa, lavavam tudo e botavam na pela para cozinha.

Muitas vezes minhas irmãs iam lá nas sextas-feiras pegar alguma coisa para reforçar a alimentação que era muito simples. Arroz, feijão e verdura cozida.

Transporte coletivo era péssimo na época, muito pior que hoje. A vantagem era que as pessoas andava muito a pé, iam para a escola a pé, para o trabalho no centro da cidade e algumas vezes até ao cinema, quando se ia sozinho. Com a namorada, o jeito era juntar uns trocados, engraxar sapatos dos nossos tios ou de vizinhos, e com esse dinheiro pagar o ônibus com a namorada e o drops Dulcora com o baleiro na porta do cinema.

O bonde era o principal e mais barato meio de transporte até a década de 60, quando o prefeito Jorge Carone acabou de vez com eles.

Na Pompeia, quase tivemos uma linha de bondes. Chegaram a colocar trilhos, mas não deu tempo de implantar.

Os pompeanos usavam muito os bondes de Santa Efigênia, que tinham o ponto final na Rua Santa Luzia esquina de Rua Niquelina. De lá a gente vinha a pé até em casa na Rua Angaí e depois na Rua Silvio Romero.

Outra linha muito usada também, e que tinha quase a mesma distância da linha de Santa Efigênia até a Pompeia era a linha de Santa Tereza.

A gente atravessava a linha do trem na Ponte do Cardoso, e pegava o bonde na Rua Mármore.

Quando minhas irmãs estudavam o primário no Grupo Escolar José Bonifácio na Rua Hermilo Alves, e como as aulas eram à noite, eu ia e voltava com elas de bonde. A gente pagava com moedas de tostões. E muita gente não pagava, porque era fácil driblar o cobrador, pulando do bonde andando, sempre que ele chegava perto para cobrar a passagem.

Foi num desses dribles para não pagar a passagem que o meu irmão mais velho, tinha 15 anos, pulou o bonde andando e bateu com a cara no poste e quebrou uma meia dúzia de dentes.

Na verdade, deixar de pagar passagens nos bondes era coisa normal, já que eles eram todo abertos, sentados mesmo iam as mulheres e os idosos, e os mais novos iam dependurados no estribo, e como o bonde andava tão devagar, com a ch3egada do cobrador, as pessoas desciam de uma lado e pegavam o bonde do outro lado, e iam assim até chegar ao seu destino.

Não havia brigas, nem vandalismo e nem discussões com o cobrador dos bondes. Tudo era por necessidade mesmo, falta de dinheiro e não molecagem.

Eram tempos bons, tempos inocentes, Tempos que não voltam mais.

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