• Guilherme Cardoso

Cem Discos é o Limite


Na década de 60, Belo Horizonte tinha três importantes jornais diários.

O Estado de Minas, publicação conservadora, o Diário da Tarde, distribuído nas bancas depois do almoço, ambos pertencentes ao grupo dos Diários e Emissoras Associados e o Diário de Minas, um jornal independente, cuja redação era na Praça Raul Soares, ao lado do cine Candelária.

Aldair Pinto, um dos maiores comunicadores de rádio das Minas Gerais era cruzeirense, chefe de torcida e muito polêmico. Comprava briga com muita gente, principalmente torcedores adversários.

Fins da década de 50, ele tinha dois programas de auditório na extinta Rádio Mineira. Era o Roteiro das Duas, às quartas-feiras às 14 horas e Só para Mulheres, no mesmo horário às quintas-feiras.Eram programas de auditório, com brincadeiras, prêmios e a emissora era ali na Rua São Paulo, esquina com Tupinambás.

Nesses programas foram lançados muitos artistas consagrados depois, como Clara Nunes e Agnaldo Timóteo. Eu e minhas irmãs não perdíamos nenhum programa de auditório. Éramos os “macacos de auditório”.

As emissoras de rádio de maior destaque eram a Rádio Guarani e a Rádio Mineira, a Inconfidência, a Rádio Itatiaia, surgida em 1952 e a estritamente musical, Rádio Atalaia, sucesso nos anos 60.

Em 1970, surgiu a primeira emissora em FM da América Latina. Era a Rádio Del Rey, instalada em Belo Horizonte. Hoje é a 98FM.

Era o ano de 1961 e na Rádio Itatiaia havia um programa chamado Cem Discos é o Limite. Era na parte da tarde Se me lembro das 2 às 4 horas.

O ouvinte se inscrevia pelo telefone e se sorteado, a cada dia precisava acertar algumas perguntas que o apresentador lhe fazia sobre determinadas músicas.

O discotecário, como era chamado, colocava determinada música e pelo telefone, ao vivo, o ouvinte ia respondendo as perguntas, que iam ficando mais difíceis.

Perguntavam o nome da música, depois o cantor, depois o compositor e por último qual era a gravadora daquela música.

De segunda à sexta-feira, o ouvinte era chamado ao telefone e se acertasse as perguntas do dia, ganha 20 LPs. Aqueles bolachões de vinil, tudo em 78 rotações com duas músicas, uma de cada lado.

Acertando as perguntas nos 5 dias da semana, ganhava 100 discos. E se quisesse ou não soubesse responder, tinha a opção de parar e ficar só com os discos ganhados até aquele dia.

Eu trabalhava na Casa Abreu, na oficina de produção de lentes de óculos, e junto trabalhavam o Adair e o Niltinho da Poméia no setor de consertos de canaetas participei do programa, usando o telefone da empresa, no horário todos participavam e torciam para mim, desde os colegas empregados até as três moças donas da Casa Abreu, a Norma a Nelma e a Nilce.

Durante esses 5 dias acertei as respostas e ganhei 100 discos e fui buscá-los no estúdio da Rádio Itatiaia na antiga Rua Coromandel, hoje Rua Itatiaia, na Lagoinha.

Naqueles anos das décadas de 50 e 60, o rádio era a melhor e a mais barata diversão do povo brasileiro.

Aqui em Minas, especialmente BH, tínhamos a TV Itacolomy dos Diários Associados, depois a TV Belo Horizonte que se transformou em TV Globo.

O hábito das famílias, e lá em casa era assim, de segunda a sábado, meu irmão Ignácio trazia o Diário da Tarde, que saia depois do meio dia, e que o meu irmão trazia pela madrugada, depois de sair do seu trabalho como garçom.

Aos domingos o costume era ler o jornal Estado de Minas, que de tantas notícias e principalmente propagandas e pequenos anúncios, não se conseguia dobrar para colocar debaixo do braço. E o peso era grande. Chegava a ter 200 páginas.

Eu, o João Alves e o Zé Luiz tínhamos um hábito de ler e colecionar as crônicas diárias do Félix Fernandes Filho, do Márcio Rubens Prado e Ângelo Prazeres que saiam no Diário de Minas. Eram crônicas falando sobre o cotidiano e sobre os amores achados e perdidos por eles.

Foram tempos bons, tempos alegres, tempos inocentes de uma época que viví intensamente. Tempos que não voltam mais.

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