• Guilherme Cardoso

Chico Moreira - Um gozador


Dos muitos colegas de serviço que convivi, Chico Moreira foi um que marcou presença e deixou saudades.

Trabalhávamos no Banco Agrícola Mercantil do Rio Grande do Sul, na agência da Rua dos Caetés, 355. Ficou pouco tempo lá. Dele se sabia que como muitos, teria vindo do interior para estudar Arquitetura em BH e para se manter, trabalhava meio expediente no Banco.

Excelente caricaturista, de pouca conversa, ficava analisando as pessoas, suas atitudes e produzindo suas charges. Ninguém escapava de seus desenhos feitos a lápis.

De acordo com as características e o temperamento de cada um, ele o transformava o sujeito num animal em suas charges.

Ora o sujeito era transformado em porco, cachorro, gato, cavalo, boi ou vaca.

Felizmente, naquela época, década de 60, não havia esse tal de buyling, nem se falava de homofobia. Podia-se brincar alegremente com as pessoas, com suas características e seus defeitos. Tudo numa boa.

José Maria Soares,por exemplo, era caixa, um sujeito grandão, estopim curto, atitudes grosseiras, e nos desenhos do Chico Moreira era representado por um burro.

O Chico Lucas, um gordo cearense, era representado por um bode, e o gerente do Banco, Giovanni Paternostro, um gordo e branco gaúcho se apresentava na figura de um porcão.

Um dia porém, o Chico Moreira, o nosso desenhista excedeu na gozação.

Durante o expediente bancário, ele cismou de carimbar todo o corpo do filho do Diretor/Gerente do Banco, o Giovani Paternostro.

O menino, de aproximadamente 10 anos, branco feito leite, gordinho, calça curta com as coxas de fora no uniforme escolar, estava dentro da agência aguardando o pai para ir para casa. Todos os dias era a mesma coisa.

Enquanto esperava o pai, o guri saia bisbilhotando o serviço de todo mundo. Passava numa mesa, perguntava isso e aquilo, mexia com os lápis, canetas, papéis, incomodando e atrapalhando os serviços de quem torcia para chegar o fim do expediente.

Era um procedimento que se repetia sempre e ninguém ousava reclamar do garoto.

Neste dia, ao passar pela mesa do Chico Moreira e começar a via sacra de perguntação e mexeção, não é que o Chico pega uns três carimbos, molha-os bem na esponja de tinta e num gesto de desespero dispara a carimbar o menino nas coxas, nos braços e na testa?

E o carimbo que mais se destacava era o que estava na testa do garoto e tinha a inscrição de DEVOLVIDO.

Assustado, e todo carimbado, o gauchinho saiu correndo e chorando em direção ao pai e nunca mais pisou na área de trabalho da agência. Daquele dia em diante, ficava esperando o pai, sentadinho na recepção aos clientes.

São histórias, casos e causos, todos verdadeiros, como esse que pode ser confirmado pelo Chico Moreira que ainda está entre nós, vivendo em Minas GeraisGiovani Paternostro, o Gerente do Banco, infelizmente faleceu no mês passado.

São tempos bons, tempos que não voltam mais.

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