• Guilherme Cardoso

Cine Pompeia


Cine Pompeia -2

Fora do circuito monopolizado, a Pompeia também tinha o seu cinema, propriedade dos Padres Capuchinhos. Um pequeno e simples salão, debaixo do altar principal da Matriz de Nossa Senhora do Rosário. Cabiam nele cerca de 300 pessoas. Duas fileiras de bancos de igreja, assento duro, sem almofada.

Passaram pela gerência do cinema pessoas dedicadas como o Raimundo Bicalho, o Fernando, Virgílio e o Jair. Os padres não administravam o negócio, apenas recebiam o dinheiro dos ingressos e censuravam o que ia passar.

Em quase todas as sessões havia um padre assistindo. Às vezes, a censura era ali, ao vivo, na hora da exibição dos filmes. Se havia alguma cena mais forte, tipo um beijo prolongado, ou uma mulher em trajes íntimos ou simulando uma troca de roupas, era comum o padre colocar a mão na frente do projetor. Era aquele berreiro, que logo se fazia silêncio, ao ver que não fora barbeiragem do exibidor e sim iniciativa de um padre. Cadê coragem para protestar. Quando muito um resmungo, um lamento baixinho. Afinal, quem dava as ordens no bairro eram os capuchinhos.

Eu gostava de contar, interpretar as cenas para os outros que não podiam ver todos os episódios. Aos sábados, especialmente, antes das sessões, eu sentava num canto do cinema e tendo em volta várias pessoas, casais de namorados e amigos, ficava cerca de meia hora contando o que tinha acontecido nos episódios de terça e quinta-feira. Era um modo dos frequentadores acompanharem a sequência dos seriados. Entre essas pessoas, recordo-me do Zé Bagunça, barbeiro do bairro e sua noiva, figuras constantes da roda de ouvintes.

Era um ritual que se repetia semanalmente. As pessoas já sabiam que naquele dia eu as estava esperando, sentado sempre no mesmo lugar. De tanto frequentar o cinema, acabei convencendo o Raimundo, gerente, a me aceitar como voluntário. Ofereci para ficar na cabine de exibição, ajudando em pequenas coisas, trocando rolos de filmes, trocando lâmpadas do projetor que sempre queimavam durante a exibição, emendando filmes que rebentavam e paravam a sessão. Sem receber nada. Apenas o direito e o prazer de poder ver todos os filmes

Naquele tempo eram os seriados que empolgavam a gente, divididos em episódios, que também duravam meses. Eram exibidos uma ou duas vezes por semana e as pessoas acompanhavam com interesse o desenrolar das histórias. Drama, aventura, suspense eram o enredo, e sempre vencia o bem, o mocinho contra o índio ou o bandido. Valores morais da época.

Nos cinemas de bairros, cada sessão reunia na abertura um pequeno Jornal de Notícias, um desenho animado da Disney, um episódio de seriado, e finalmente o filme de longa metragem do dia ou da semana. Os principais seriados eram Os Perigos de Nioka, O Zorro, estilo faroeste com Clayton Moore, Flash Gordon no Planeta Marte, ficção que previa avanços tecnológicos acontecidos neste século.

Os anos passavam, mesmo lentamente, novas tecnologias chegavam e os amantes de cinema do Bairro Pompeia reivindicavam mais conforto e estrutura melhor. Diante do avanço tecnológico e das exigências dos frequentadores, os padres capuchinhos resolveram construir um novo cinema, ao lado do velho salão. Frei Fidélis era o vigário e tomou a incumbência de enfrentar o desafio. Uma construção moderna, cadeiras próprias de cinema, embora não estofadas, antes eram bancos de igreja e com as novas tecnologias de exibição disponíveis, como o Vistavision e a tela grande do Cinemascope, quase duas vezes a normal.

A inauguração do novo Cine Pompeia foi no dia 15 de dezembro de 1959. Uma festa entre os amantes da Sétima Arte na Pompeia. Era o progresso do cinema chegando aos bairros. E como não podia deixar de ser, eu estava lá, primeiro da fila, inteiramente envolvido no projeto.

Como eu era viciado em cinema, o Frei Clemente me deu a bomboniere para tomar conta E como eu gostava de escrever poesias, durante alguns anos, um quadro grande, emoldurado pelo frei Clemente, foi colocado na parede do lado de dentro da bomboniere e chamava a atenção dos fregueses para curtir bem os filmes. Ainda me lembro de duas estrofes: Quando entrares no cinema, Preste muita atenção. Encha os bolsos de balas, Pra não ter decepção. Pois se o filme for ruim, Monótono e sem enredo. Se você não tiver balas, Acaba chupando o dedo.

inesquecíveis os filmes que passaram pelas nossas mãos e seleção, naqueles românticos anos 60. A Ponte do Rio Kwuai, A um Passo da Eternidade, Sete Homens e um Destino, Pistoleiro do Entardecer, Os Brutos Também Amam, são alguns que valem ser lembrados.

Filmes que tinham censura 18 anos, não eram de mulher pelada, sexo explícito ou extrema violência. Eram quase sempre aqueles filmes que mostravam beijos prolongados, algumas pernas de fora, e raríssimas vezes, uma mulher nua, e de longe. Apenas vulto. Nada mais. Proibiam-se os filmes, mais pelo que as cenas poderiam sugerir, provocar e estimular a imaginação do espectador.

Este e outros casos e causos estão no livro de minha autoria No Tempo dos Capuchinhos

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