• Guilherme Cardoso

Com o Brasil na Copa do México


Na Copa do Mundo de 1970, quando o Brasil finalmente foi tricampeão, depois de um jejum de 08 anos, eu quase fui junto assistir aos jogos no México.

Só que naquela época, embora amante do futebol, a intenção maior de ir à Copa no México, não sera apenas ver os jogos, e sim fazer negócios e com o lucro atravessar a fronteira e se mudar para os Estados Unidos.

Eu ainda trabalhava no Banco Agrícola Mercantil do Rio Grande do Sul, que mais tarde, com as fusões, virou o Banco Itaú.

Eram os anos duros do Regime Militar, havia muitas greves, manifestações, repressões violentas e muitas prisões de artistas, líderes estudantís e bancários que se envolviam em passeatas contra o governo.

O lema do Regime Militar era Brasil, ame-o ou deixe-o, direcionado àqueles que se sentiam insatisfeitos com o que acontecia no Brasil.

Embora tivesse um bom emprego, estável, com bons salários, eu sempre tive vontade de morar nos Estados Unidos, e a Copa do Mundo no país vizinho, o México, possibilitava este sonho.

No Banco havia um cliente, um rapaz novo, mesma idade que a minha, solteiro como eu, que também tinha esse desejo. Conversa vai, conversa vem, e montamos um plano para chegar até lá e obter os recursos necessários para entrar nos EUA e permanecer um tempo até conseguir se estabelecer.

O nosso plano era mandar confeccionar aqui no Brasil umas 10 mil camisas amarelas com a inscrição de Brasil Tricampeão e mais uns 5 mil bonés, colocar tudo em umas 4 malas, se hospedar no México, acompanhar os jogos, e se o Brasil fosse campeão, como foi, nós seríamos uns dos poucos brasileiros com tanto material promocional para vender. E ganharíamos um ótimo dinheiro.

De junho a dezembro de 1969, eu e o cliente amigo encomendamos as camisas, as flâmulas e os bonês, na fábrica do Michel Aburachid, cliente do Banco, pagamos tudo e fomos juntando umas economias para comprar as passagens de ida e volta ao México e garantir a hospedagem durante os jogos da seleção.

Tudo ia bem, e se o Brasil fosse tricampeão como foi em 1970, eu mandaria meu pedido de demissão ao Banco pelo correio, lá dos Estados Unidos, já que naquele tempo não havia internet, nem email e ligações telefônicas do exterior para o Brasil eram demoradas.

O planejamento estava perfeito, só eu e o parceiro sabíamos do plano, não contávamos para ninguém, mas o inesperado, o imprevisível aconteceu no mês de janeiro de 1970.

Meu pai, que até então gozava de uma saúde invejável, nunca havia ido ao médico, começa a ter dificuldades para urinar, vai ao hospital, é internado e operado da bexiga, mais tarde informado a nós que era um câncer de próstata.

A cirurgia foi tranquila, meu pai, o senhor Antenor Cardoso Dias, o seu Cardoso lá da Ponte do Cardoso, que ligava Santa Tereza à Pompeia, sofre um enfarto dois dias após o seu aniversário de 69 anos no dia 22 de janeiro, e inesperadamente vem a falecer.

Foi um baque enorme na família, especialmente nos 4 filhos, pois ninguém esperava aquele acontecimento de uma hora pra outra.

Eu, filho caçula, solteiro, morando sozinho, fiquei profundamente abalado, sem chão durante muitos meses.

E aí, neste abalo psicológico, me refazendo da perda do meu pai, a planejada aventura para o México e depois aos Estados Unidos foram por água abaixo, mas o meu colega e parceiro, decidiu seguir assim mesmo, sozinho, levando todo aquele material para vender ou então perder, se o Brasil não fosse Tricampeão do Mundo.

Sei que o cliente parceiro foi bem sucedido, ganhou um bom dinheiro, mudou-se para os Estados Unidos, fez bons negócios lá, comprou casa e apartamentos no Brasil, e pouco antes de eu sair do Banco, ele me fez uma visita lá e contou sobre o seu sucesso.

Em 1971 me casei, tive filhos, nova vida.

Esse cliente, colega e parceiro, nunca mais o ví depois desse encontro em 1979.

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