• Guilherme Cardoso

Compras eram na caderneta


Nos anos 1950 e 1960, não havia supermercados em BH e shoppings-centers eram ficção. As compras do dia a dia eram feitas no armazém da esquina e colocadas na caderneta para serem pagas no final do mês, ou aos poucos, conforme o que se recebia. Ninguém fazia compras para o mês inteiro ou sequer para uma semana. Dificilmente alguém dava o cano, deixava de pagar a caderneta.

As compras eram feitas diariamente, segundo a necessidade. Precisava de arroz, ia à vendinha ou ao armazém e colocava na caderneta. Faltava feijão, fubá ou sal, anotava na caderneta. Às vezes, garoto que a gente era, mentia para o dono do armazém e dizia que a mãe ou irmã mandou buscar balas ou um chocolate e botava na caderneta. No fim do mês, vinha o troco. Tome surra e castigo.

Naqueles tempos, Pai, mãe e professora tinham autoridade, podiam castigar, dar palmadas no traseiro, reguadas na cabeça, puxão de orelhas. Não havia revolta.

Lá no bairro Pompeia, quase todo mundo tinha uma pequena horta em casa. Apartamentos não existiam. Só no centro da cidade. Nos bairros da periferia como dizem hoje, as pessoas moravam em casa, com espaço, quintal grande, onde se cultivavam aquelas verduras e legumes mais populares. Couve, alface, chuchu, cebolinha, tomate, jiló, agrião, mostarda, taioba, pimentão, nada disso se comprava.

Quase tudo tinha na horta e o que não se tinha trocava-se com o vizinho.

“Dona Maria!!! Estou precisando de sal. A senhora me empresta um pouco? E alface, tem um pé para me dar?”

Era assim quase todos os dias a conversa entre minhas irmãs com a Família Miranda, do outro lado da Rua Sílvio Romero. Nós de um lado, eles do outro lado da rua. E o que se pedia emprestado de um, sempre voltava ao outro. Verdadeira solidariedade.

Como havia muitos lotes vagos na Pompeia, muita mata, era possível apanhar de graça jurubeba, ora-pro-nobis, gabiroba, a folha de assa-peixe, e outras espécies que não se encontram hoje, nem para comprar. Além de frutas que se desenvolviam naturalmente nas ruas, como goiaba, manga, jambo, amora.

Era comum também, as famílias criarem porcos durante o ano, para depois de bem gordo, matá-lo às vésperas das festas juninas ou de fim de ano. O porco era cortado ao meio, separado em bandas, retirada a gordura, que era transformada em toucinho e torresmo e a sua carne cozinhada e conservada em latas e distribuída aos parentes e vizinhos. Durante meses aquelas famílias tinham garantida a gordura para cozinhar e torresmo e pedaços de carnes para enriquecer as refeições.

Anos depois, inventaram que a criação de porcos no Brasil estava contaminada, que o processo era artesanal, sem higiene e quem comesse destas carnes poderiam contrair graves doenças. Com isso, a produção caseira de porcos praticamente desapareceu, surgindo então o hábito de se utilizar o óleo de soja como sendo mais benéfico à saúde, embora produzido industrialmente.

A rede de Supermercados EPA, hoje com várias lojas em Belo Horizonte, começou seu negócio na década de 50 em dois pequenos armazéns nos bairros Esplanada e Pompeia. Um localizava-se na Rua Felipe Camarão e o outro, uma portinha pequena, na Rua Iara, quase esquina com Rua Sílvio Romero. Era o Armazém Popular.

Seus proprietários, da família Nogueira, eram o Gil e o Levy, residentes no Bairro da Esplanada, mas que se envolviam nos movimentos comunitários da Pompeia e patrocinavam alguns eventos.

Quando era garoto, ainda curti um pouco o tempo em que o pão e o leite eram deixados na porta ou nas janelas das casas pelos vendedores. Ninguém roubava De manhã, bem cedinho, eu escutava o refrão do padeiro e o tilintar da carrocinha de leite passando na rua.

Quem não recebia a garrafa de leite na porta, comprava na carrocinha. Em cada esquina ela parava e a meninada chegava junto. Esperança de beber uma sobra de leite ou ajudar a puxar as rédeas do burro. O leite era vendido em garrafas de vidro de um litro ou a granel, colhido numa torneirinha que saía de um tanque.

As pessoas chegavam com seus vasilhames e conforme a posse, compravam um litro, meio litro e até menos. Não havia fartura, só necessidade.

Como é bom lembrar de coisas simples, não é?

Velhos e bons tempos que não voltam mais.

Este e outros casos e causos estão no livro de minha autoria No Tempo dos Capuchinhos.

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