• Guilherme Cardoso

Confessando os pecados


Os confessionários das igrejas eram todos iguais. Uma pequena tenda de madeira, um metro quadrado no máximo, um banco onde o padre se sentava, uma porta com cortina, e uma janelinha quadriculada, onde não se via o rosto de quem confessava e nem do confessor. Ouvia-se apenas a voz, os sussurros, a voz baixa e temerosa de quem contava seus pecados e a voz firme e autoritária do padre, que escutava, absolvia ou condenava.

No bairro Pompeia, alguns padres capuchinhos eram temidos pela maioria dos fiéis, pois tinham temperamentos fortes, eram duros, exigentes e exagerados nas condenações, e às vezes, ficavam bravos com os pecados e a postura de alguns fiéis, e elevavam a voz na hora de reprimir e aconselhar.

Desses padres, a gente evitava encontrar no confessionário. Ninguém queria que outros fiéis na fila do confessionário ficassem sabendo dos pecados cometidos pelo outro. Outros padres eram mais objetivos e rápidos. Perguntavam quais eram os pecados, se havia algum pecado mortal e em caso negativo, davam logo uma penitência. Era o confessionário mais procurado pelos fiéis, especialmente pelos jovens., quase sempre cheios de pecados.

Havia um ritual para ir às missas e se confessar e comungar. As mulheres tinham que vir de véu na cabeça, vestido não podia ser curto, nem blusa sem manga e vestido com decote. Se alguma moça esquecia ou se atrevia a comungar sem estar devidamente vestida, podia esperar que o padre a pediria para sair da fila e até mesmo da igreja. Vexame total, sob os olhares reprovadores dos demais fiéis.

Por causa das confissões obrigatórias, naturalmente os padres capuchinhos sabiam da vida de quase todos os moradores do Bairro Pompeia. Sabiam dos casais que brigavam constantemente, dos maridos que traiam suas esposas, das dificuldades financeiras que as famílias enfrentavam, dos problemas com alcoolismo entre os jovens. Drogas pesadas ainda não faziam parte das festinhas e das horas dançantes daquela época. O exagero era com as bebidas consideradas sociais. Cachaça, vinho e cerveja.

Quem recebia a comunhão precisava estar em jejum de pelo menos 8 horas e deveria ter todo o cuidado para não morder a hóstia sagrada, pois ali estava o corpo de Cristo. A hóstia ficava grudada no céu da boca até derreter. Uma mordida descuidada e a gente já tinha um novo pecado para contar na confissão, que era obrigatória para quem se dizia católico. E era confissão presencial, cara a cara com o padre. Nada de confissão comunitária.

Pelo menos uma vez por semana tinha que se confessar. Os pecados eram muitos. Responder aos pais, brigar com colegas, responder professoras, xingar nome feio, ter pensamentos contra a carne, ou seja, o corpo, sonhar com a mulher do próximo.

Adolescente então era o mais pecador. Corria o risco de ir para o inferno toda hora. Tudo que pensava ou fazia era pecado. Revistinhas de mulher pelada, sonhar fazendo sexo, masturbação, nem pensar. Era pecado grave. Transar com a namorada, na casa dela, era pecado impensável e inadmissível.

Dependendo do padre no confessionário, a penitência para pecados graves podia chegar a casa dos 100 Pai-Nossos a serem rezados todos os dias, durante uma semana. E ainda prometer nunca mais cometer esses pecados. Tarefa impossível.

Os padres sabiam disso. Na semana seguinte, lá estava a gente novamente, arrependido, confessando e prometendo. As pessoas tinham muito respeito dos padres e temor de que Deus viesse realmente punir os pecadores.

Frei Filipe, vigário na década de 1960 era um padre italiano, baixinho e troncudo, que de vez em quando parava a missa para chamar a atenção de alguém e até mesmo para pedir essa pessoa para sair da igreja. Bastava uma conversinha com quem estivesse ao lado, uma risadinha típica dos jovens e frei Filipe dava uma bronca. Em alto e bom som.

Naquela época, décadas de 50 e 60, o padre era visto por todos como um ser humano diferente, que tinha todas as virtudes, que não pecava, um santo. O padre não frequentava festas, não bebia em público, não fumava e só andava de batina. No caso dos capuchinhos, a maioria dos religiosos era barbudo.

Adolescente ou adulto, quando a gente passava por um padre, era comum pedir a sua bênção, e até beijar sua mão. Criança então, ganhava o dia quando recebia santinhos do padre.

Este e outros casos e causos estão no livro de minha autoria No Tempo dos Capuchinhos.

2 visualizações