• Guilherme Cardoso

Escola era nossa segunda casa


Aos seis anos, eu já lia e escrevia bem. E não frequentava escolinha, maternal ou coisa parecida. Não havia pré-escola naqueles tempos no ensino público. Talvez houvesse no ensino particular. Aprendi sozinho. Não era superdotado. O motivo era o interesse de acompanhar minhas irmãs e tomar a sopa que era servida todas as noites aos alunos.

Minhas irmãs estudavam a noite no Grupo Escolar José Bonifácio em Santa Tereza. Na sala, eu sentava na primeira fila, e de tanto ouvir as explicações e os ensinamentos das professoras, aos poucos e prematuramente, fui aprendendo a ler e recitar a tabuada. Que era aprendida e decorada na forma de cantoria.

Não havia fartura no cardápio da cantina, como se vê hoje nas escolas. A variedade era pouca, mas para quem quase nada tinha, sopa, macarronada e arroz dia sim, outro também, era o melhor que se podia esperar.

O Hino Nacional e o Hino da Bandeira eram cantados obrigatoriamente pelos alunos todos os dias e noites também. Os alunos, de todas as idades se perfilavam e iam subindo as escadas do grupo para o segundo e terceiro andar, cantando e marchando, e só terminava o ritual quando todos se postavam nas salas de aula.

Ainda havia o respeito, a admiração e a esperança nos políticos. Nas aulas, o uniforme era obrigatório. Mesmo com toda a pobreza da época, ninguém entrava nas salas de aulas sem estar devidamente vestido.

Nas escolas públicas, o uniforme era padronizado, igual nas cores para todos. As meninas vestiam blusa branca e saia azul, e no cabelo, no alto da cabeça, colocavam uma fita, igual borboleta. Os garotos iam de camisa branca e calça curta azul. Não se usava tênis. Sapato era obrigatório, mesmo que fosse calçando um só pé. Eu cheguei a ir a muitas aulas assim. Um pé calçado, o outro com um pano no dedão, fingindo estar machucado. Semana seguinte, o inverso. Era truque para não fugir das normas

Do primeiro ao quarto ano eu estudei no Grupo Escolar João Alphonsus, que era na Rua. Antonio Justino esquina com Amazonita, no Bairro Pompeia. Escola municipal, bem simples. Boas recordações das professoras, d. Argentina, Anita e Nelita, esta última com quem tirei o diploma de quarto ano.

Naquela época, não tinha essa de chamar professora de tia. Dona Anita era alta, cabelos pretos e lisos, como índia, era das mais bravas. Corrigia os alunos em sala, quem desobedecia ficava de castigo, se respondia levava reguada na cabeça e não adiantava chorar nem reclamar na diretoria ou em casa.

Se chegasse reclamação da escola, a gente tomava umas varadas de marmelo nas pernas e ficava de castigo.Professora era nossa segunda mãe, e a escola nossa segunda casa.

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