• Guilherme Cardoso

Eu corri pelado na Pompeia


Moramos muitos anos na Rua Angaí, na Pompeia. Isso até os anos 60 quando mudamos para a rua Sílvio Romero.

A Rua Angaí é uma rua de apenas um quarteirão, poucas casas, fazendo esquina com a Rua Furquim e a Avenida Alphonsus de Guimarães, esta, toda calçada, que na época era sem saída,sem saída, onde não passava nenhum veículo.

Ali, jogávamos pelada todos os dias.

A rua principal era a Niquelina, paralela, única e estreita via por onde passavam todos os veículos que vinham para a Pompeia, Saudade, Vera Cruz e Esplanada.

Dona Maria, viúva do senhor João Miranda e sua grande prole. Vizinhos de frente, Zé Miranda, Antonio, Lucy, Neném, Olga, Jésus, Joãozinho, Olímpia, Miltinho.

Nossos vizinhos ainda na rua Angaí eram o Seu Celso, pai do Celsinho, Marília, Marilda, colegas de minhas irmãs.Em frente à nossa casa tinha Dona Olga, Sônia e Marlene. Havia também a Dona Neném, Celso, Jonas, Eliana Conrado

No alpendre de cimento liso da casa deles jogávamos memoráveis partidas de futebol de botões. Nós mesmos fazíamos os nossos botões, com cascas de cocos. E colocávamos em cada botão o nome e o escudo de um time. Só criatividade.

Mas houve um momento triste também, que comoveu muita gente.

Lembro como fosse hoje, de um acidente ocorrido no dia 8 de dezembro.

Na ocasião, um caminhão cheio de convidados para uma festa de casamento despencou rua abaixo em Santa Tereza, atrás do Quartel.

Houve vários mortos e feridos. Celso Conrado o mais velho, ficou muito tempo internado no Hospital da Baleia. E a irmã dele morreu.

Eu era um dos convidados, mas não fui à festa de casamento. Motivo: pirraça, pois eu não queria antes ir à missa das 19 horas, era feriado, dia de Nossa Senhora da Conceição.

Papai tinha grande devoção. Eu fiz pirraça, Insisti em ir com a turma, minhas duas irmãs me puseram de castigo, o caminhão foi e eu fiquei. Dei sorte. Podia ter morrido.

Os moradores da vizinhança eram o Zezinho babão, dona Francisca e Sr. Chiquinho, durão e ameaçador. Tinha prazer em rasgar todas as bolas que caíam na sua casa, na rua em que jogávamos pelada o dia todo.

Alexandre, o Xandinho, Nô e Naná, eram irmãos, família italiana, onde tinha muita conversa e comida. Eu estava sempre lá, contando casos, ajudando a fritar bolinhos e lógico, comendo.

Dona Castorina era a xerife da Pedreira, no início da rua Sílvio Romero. Onde se produzia e vendiam pedras , britas e cascalhos. Lá, ninguém ousava entrar.

Dona Maria Veloso tinha um filho José Eustáquio, que era metido a galã, irritava a gente, topete engomado, e gostava de imitar Elvis Presley. Sua casa, era a única mais próxima que tinha televisão, a a gente assistia alguns filmes de longe, pois não deixavam a gente entrar.

Como em toda história e lugar, sempre tem uma garota que todos os meninos adoravaqm e sonhavam namorar.

Sônia, tinha uns 12 anos, era a mais cobiçada pelos garotos. Seus pais tinham boas condições financeiras, casa própria, lote murado, luz, água de cisterna. Poucos de nós tínhamos tudo isso.

Vestia-se bem e estudava em colégio particular. Lembro-me de quando o pai de Sônia morreu. Estava acamado por meses. Disseram que tinha sido feitiço, que ele havia pisado num sapo colocado na porta de sua casa. Macumba, inveja de alguém.

Muitos eram os meninos que que na meninice, sonhavam em namorar aquela garota. E namorar naquele tempo era só ficar conversando com a menina e no máximo segurar a sua mão. Beijar era quase impossível.

Eu, com 12 pra 13 anos, era um candidato com menos chance.

Era magrela, tinha dois dentes quebrados na frente por causa da necessidade de passar sonda para me alimentar quando aos 12 anos tive tétano.. Como os outros garotos da minha idade, eu estava apixonanado por aquela menina e sonhava até em me casar.

Por causa dela, que nem ligava pra nós, garotos bobões, vira e mexe a gente estava brigando. Eram Socos, pontapés e pedradas. Nada além.

Para decidir quem iria primeiro tentar conquistar a menina Sônia, nós os garotos apaixonados combinamos um desafio.

Fazer uma corrida pelado de um quarteirão, passando na frente da casa dela, que era na rua Angai que tinha e tem até hoje somente um quarteirão.

Na porrinha, aquele jogo de palitos nas mãos, eu fui o escolhido. Ansioso e esperançoso, concordei correr pelado e a noite..

Com muito medo, mas fingindo coragem, tirei a calça curta, já vivia sem camisa imitando Tarzan, e num piscar de olhos disparei pela rua.

Estava muito escuro. Umas oito horas. Possivelmente todos estariam dormindo. Não havia Jornal Nacional, nem novela naquela época.

Mas errei feio! Ao passar em frente à casa da garota, eis que a janela virada pra rua se abre e dona Olga, a mãe, logo ela, minha provável sogra, me viu todo pelado, passando em frente à janela.

Ela levou um susto e deu um grito.

Continuei a corrida, mudei de rumo, fui pro mato, e fiquei por lá algumas horas, sem coragem de retornar. Nem a roupa eu voltei para pegar.

Envergonhado, fui chorando pra casa, enrolado numa folha de bananeira. Perdi uma possível namorada, tomei umas varadas de marmelo em casa, virei alvo de gozações da meninada por um bom tempo. E Fosse hoje, eu ia reclamar de bullyng.

0 visualização