• Guilherme Cardoso

Footing: o desfile para arranjar namorada


O Desfile para Arranjar Namorado Footing, que no idioma inglês quer dizer ir a pé, era a forma mais comum que as pessoas usavam para se exibirem e despertar o interesse do outro, no caso, o sexo feminino se apresentando ao masculino.

Era o modo mais simples de se derrubarem barreiras da timidez e de modo rápido, arranjar um namoro.

O costume prevaleceu até o início dos anos 1970.

Em Belo Horizonte, durante os anos 1960, havia pontos tradicionais de footing, onde moças e rapazes, jovens e adultos, desfilavam seus atributos físicos e seus interesses, de simplesmente namorar.

Não existia esse negócio de “ficar”. E transar com uma namorada era a coisa mais difícil do mundo.

As moças se enfeitavam todas, passavam batom, talco e ruge, colocavam os melhores vestidos rendados, muitos engomados, eram comuns as saias rodadas, bem abaixo dos joelhos. Minissaia veio mais tarde.

Os locais de footing mais conhecidos e frequentados eram os do Bairro Funcionários, hoje Savassi, ambiente mais refinado, e os mais populares na Praça Duque de Caxias em Santa Tereza,o da Igreja de Santa Efigênia, e no espaço junto aos jardins da Igreja de São José, no centro da cidade.

Todas as noites, a partir das 19 horas, os rapazes, bem vestidos para impressionar, ficavam perfilados, de pé, e as moças, de todas as idades, 15 anos para cima, cores e classes sociais, desfilavam de um lado ao outro por várias vezes. Nunca depois das 10 horas da noite.

Os homens, rapazes e adultos, agiam respeitosamente, e para chamar a atenção, ao passar aquelas garotas que lhes despertavam interesse, proferiam baixinho, quase sussurrando, palavras de gracejos.

Os gracejos eram elogios à beleza, aos longos cabelos sedosos, aos olhos verdes, azuis ou claros como a luz do luar daquela garota.

Era um tempo em que havia respeito às mulheres, jovens e solteiras. As casadas, essas nem se olhava direito pra elas. Eram objetos de desejo proibidos.

Quase não havia casos de assédio sexual. Não aconteciam palavrões quando alguma moça não tinha interesse em determinado rapaz.

E quando o galanteio era correspondido, o interesse feminino se manifestava, o gesto de aprovação da moça era um olhar mais direcionado, convidativo, sugerindo e aceitando que o rapaz a abordasse.

Era um ritual romântico e demorado para se conseguir arranjar uma namorada. Mesmo depois que a moça pretendida confirmasse a paquera com um olhar, nada estava definido.

A gente chegava ao lado da moça, que não parava, continuava no footing, na caminhada, precisava desfilar ao lado da moça um bom tempo, e para conquista-la e marcar um encontro para os próximos dias, era preciso ter um bom repertório de palavras de amor, alguns versos, tudo decorado antecipadamente para aquele momento.

E normalmente nesse footing, nesse desfile, a moça escolhida e que nos aceitava, estava sempre acompanhada de uma irmã ou de uma amiga, e assim seria o namoro nas próximas semanas e meses. Nunca sozinhos, sempre acompanhados de uma irmã ou amiga, nos cinemas e nos bailes dos clubes.

Era um tempo de muita inocência, mas era uma época boa, todos eram felizes com o que tinham. Tempos que não voltam mais.

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