• Guilherme Cardoso

Já tomou Limonada Purgativa?


Hoje a gente está passando por uma grave pandemia do coronavírus, com milhões de contaminados e centenas de milhares de mortos só no Brasil. No mundo todo ,os números são desastrosos.

A covid 19 é chamada de doença moderna, doença digital, que se espalhou facilmente entre os povos, tendo em vista as facilidades de locomoção das pessoas por todos os lugares do planeta. Onde há pessoas, transportes, negócios e lazer, o ser humano dá um jeito de chegar lá. E aí a transmissão de qualquer vírus se acelera e contamina a todos.

Em tempos passados, não muito distantes de nós, 50, 60 anos atrás, só havia o rádio e nem todos tinham, jornais eram para poucos, a maioria era analfabeta, não tinha televisão, e as informações demoravam a chegar, às vezes nem chegavam à população, e as doenças que mais atingiam o povo brasileiro, e até matavam, eram bem diferentes.

Pela falta de saneamento básico naqueles anos 50 e 60, era comum as pessoas se contaminarem com ameba, com xistose, a esquistosomosse, terem tuberculose, varicela, varíola, sarampo, poliomielite,, tétano, que ainda não tinha cura e eu tive tétano com 12 anos de idade.

Quando a criança tinha sarampo, ela não ficava isolada, como se recomenda hoje. Era crença de que a criança se curava mais rápido deixando-a em contato com outras crianças, pois o vírus se espalhava e se enfraquecia.

Por desconhecimento, muitas crianças morriam após o nascimento, com a doença chamada de Mal dos 7 Dias, que na verdade era o tétano, por causa do costume das mães e das parteiras cortarem o umbigo do recém nascido e colocar fumo de rolo no lugar para secar. Sete dias depois dava o tétano e o bebê morria.

Naquela época, a vacina contra o tétano estava em fase de experimentação, como a vacina do covid hoje, na fase 3, e no Pronto Socorro, eu e mais 4 outros internados no mesmo quarto recebemos o tratamento e naquele quarto só eu sobreviví.

Eu morava na Pompeia, a vida era quase rural, infraestrutura precária, a maioria das casas não tinha água encanada, água para beber, cozinhar, tomar banho e lavar roupa era buscada em bicas e poços próximos do rio arrudas na divisa do bairro com Santa Tereza.

Minhas irmãs, ainda garotas é quem buscavam a água em latas na cabeça. Eu ia junto, brincando e o prazer era atravessar as águas ainda rasas e limpas, mas contaminadas do rio Arrudas e jogar uma peladinha no campo do Minas, às margens do Arrudas.

Era na travessia do rio que a meninada pegava todo tipo de vermes e bactérias que eram tratados em casa com chás de hortelã, de folha de cansanção, e outras mais. Ninguém ia aos médicos. Hospital era a Santa Casa para internamentos e o Pronto Socorro Policial para emergências.

Era comum meninos de 5, 6 anos com aqueles barrigões, que não eram gordura, mas vermes, xistose, amebas, e muitas lombrigas na barriga e no intestino.

Por falta de condições sanitárias, havia pouca higiene com o que se comia. Como hoje se pede, antigamente não era comum a gente lavar as mãos toda hora, antes de almoçar e jantar, e até tomar banho de corpo inteiro era só nos sábados, pois havia pouca água. Na hora de ir pra cama, era normal apenas lavar os pés na bacia.

Verduras e legumes se colhiam na horta, no quintal da casa, nem sempre eram lavadas, iam direto para a panela ser cozinhadas ou a gente comia tudo cru.

Por causa dessas contaminações, era costume as escolas municipais do primeiro ao quarto ano, fornecerem e obrigarem os alunos a tomarem a cada seis meses uma garrafinha de umas 200 ml de limonada purgativa, que era para matar diversos vermes contraídos.

O gosto da limonada era horrível, a professora fechava nossa nariz e a gente bebia aquele negócio na marra e chorando. A limonada normalmente era dada na sexta-feira, porque os efeitos dela aconteciam algumas horas depois e permaneciam pelo menos o sábado e domingo, causando diarréias seguidas.

Lembro das vezes que tomei essa limonada, as várias horas que ficava agachado no banheiro feito de fossa, fora da casa, e outras vezes no meio do mato, com aquela quantidade impressionante de lombrigas vivas saindo na evacuação. Sem exagero, algumas lombrigas chegavam a ter um metro de comprimento.

Essa limonada purgativa era tão forte, e causava tanta limpeza no nosso organismo, que a gente ficava pálido, olhos fundos, e nesse tempo não aguentava nem comer. Parecia que ia morrer. Mas os vermes acabavam. Pelo menos até a próxima limonada em seis meses.

Hoje, há muita informação, todos tem celulares, tevês, rádios e sabem os perigos da doença e como devem se prevenir até que a sonhada vacina chegue para dar um fim ou pelo menos controlar esta pandemia que nos aflige, contamina e mata.

Mas, infelizmente, ainda assim muita gente não leva à sério as informações, não segue as determinações médicas e sai às ruas, se aglomera e se contamina e passa para os demais.

Devem estar desinformados de tudo, como aqueles que viveram em Tempos passados, tempos antigos, que morriam ser saber porquê, Tempos que não voltam mais.




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