• Guilherme Cardoso

Leite, pão e balas na Pompeia



No Bairro Pompéia onde passei minha infância, o Bar da dona Rosa na rua Fluorina esquina com rua Juramento era o lugar preferido para se comprar doces, balas, bolos e pasteis sírios ou turcos, já que dona Rosa era de descendência turca.

Durante a minha infância e adolescência, eu era um sujeito conhecido porque sempre andava com os b olsos cheios de balas. No início eram as balas pretas, uma bala redonda que agarrava nos dentes e deixava a boca toda espumada. Mais tarde, na adolescência a minha mania era ter sempre no bolso as balas Chita, que existem até hoje.

Na Rua Iara, entre Rocha Pita e Silvio Romero havia o Armazém Popular, uma lojinha pequena, tipo porta de garagem, que vendia arroz, feijão, açúcar, fubá, canjiquinha, tudo a granel.

Naquele tempo poucos eram os produtos empacotados. O arroz por exemplo se comprava a granel e tinha três qualidades e diferentes preços. O arroz de primeira, chamado agulhão, o de segunda e o quebradinho, o mais barato. E vinha cheio de casca, conhecida como marinheiro. O feijão vinha cheio de pedras, e para cozinhá-lo era preciso ficar horas catando as pedras.

Na Rua Mário Martins, fundos do Lactário que ficava na Rua Iara esquina com Mário Martins, tinha uma fábrica de balas e gelatina, isso no fim dos anos 50, começo de 60, e era alí que eu e outros garotos buscávamos retalhos de balas e de gelatina seca para comer. E isso se repetia todos os finais do dia. A gente saia com os bolsos e as mãos cheias.

A fábrica era no fundo e na frente era a casa do proprietário, um tipo italiano, não me lembro o nome dele. Ele era um bom sujeito.

Na sala da casa tinha uma televisão que ficava ligada tarde e noite, pois naquele tempo as transmissões começam às 4 da tarde e terminavam às onze da noite. Era a TV Itacolomy, canal 4, que das 4 às seis passava só desenhos animados, em preto e branco, que encantava a meninada e muitos adultos desocupados.

Até a década de 60, era comum as pessoas receberem o pão e o leite nas portas de suas casas. De madrugada, a gente ainda estava na cama, 5, 6 horas e ouvia o padeiro descendo a rua Silvio Romero gritando Padeiro, Padeiro!!!. E em cada porta ele deixava um pão de sal, como era conhecido o pão francês, normalmente a bisnaga de um quilo ou de meio quilo. Não tinha escolhas como hoje.E no domingo ele vinha receber as compras da semana.

Com o leite era quase a mesma coisa. Pela manhã, depois do padeiro, vinha uma carroça de leite, com um tambor grande cheio de leite, com torneira, onde o leiteiro ia enchendo as garrafas de vidro de um litro e deixando nas portas das casas, e também vendendo a granel para as demais pessoas que traziam seus vasilhames.

Para matar a minha vontade de beber leite todos os dias e andar de carroça, eu me lembro que tinha uns 10 anos de idade e por um bom tempo em pegava carona na carroça de leite em frente minha casa e ia até a rua Fluorina esquina com Niquelina. Depois voltava dando pulos de alegria e contando vantagens para os outros meninos.

Quando garoto, eu era muito curioso e corajoso, assistia muitos filmes de faroeste, me inspirava naqueles mocinhos e adorava aventuras e ousadias.

Por causa disso, eu era figura constante e conhecida no Pronto Socorro Policial, que era na R.dos Otoni, atrás do Hospital São Lucas. Quase todas as semanas lá estava eu sendo atendido pelos enfermeiros por causa de dedo cortado por causa das peladas de rua, testa quebrada por pedradas em brigas de rua, cortes na cabeça por quedas de árvores em busca de mangas maduras e de repetições de cenas do Tarzan pulando de galha em galha com cipós.

Às vezes eu chegava ao Pronto Socorro para um atendimento, com outra parte da cabeça ainda com curativo de outro ferimento.



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