• Guilherme Cardoso

Macarronada e Sílvio Santos na Pompeia


A minha infância, adolescência e parte como adulto, eu passei na Pompeia. A primeira infância, dos 5 anos até os 12 anos de idade eu morei na Rua Angaí, quase esquina com Av.Alphonsus de Guimarães.

Ali é que a gente jogava futebol de rua, brincava de pegador, de Tarzan nos muitos lotes que eram puro mato, com árvores grandiosas, e muitas delas frutíferas.

Era um tempo em que a gente não comprava nem frutas e nem verduras. Verduras as famílias plantavam em casa e trocavam com as outras famílias. Quem tinha alface de sobra passava para o outro, quem tinha tomate ou jiló, oferecia a outra família.

As frutas, como goiaba, manga, banana, ameixas, abacate, jambo, amora, carambola e outras mais, a gente pegava nos lotes vagos e levava pra casa, ou comia lá mesmo, debaixo da árvore.

Não se comia muita carne como hoje. Tinha pouca oferta e o preço era alto. Uma vez ou outra se comia era dobradinha, língua de boi, miúdos de porco e o fígado, que não era vendido nos açougues.

Nos domingos o prato preferido das famílias mineiras era a macarronada com frango, e o almoço, chamado de jantarada, acontecia pelas duas horas da tarde. E quem tinha televisão, comia assistindo o programa do Sílvio Santos que entrava no ar às 11 da manhã e ia até as oito horas da noite.

A gente comia frango todos os domingos, porque quase todo mundo criava galinhas no terreiro, a maioria solta na rua, botando ovos no meio do mato ou na casa do vizinho.

Entre os vários vizinhos e amigos que a gente tinha na Pompeia, havia uma família de italianos que morava na Rua Niquelina, hoje 1693, com os fundos do lote dando para a Av.Alphonsus Guimarães e para onde eu ia constantemente.

Não me recordo mais do nome dela, mas me lembro de dois dos 3 filhos, o Alexandre, que a gente chamava de Xandinho, a Norma que já era uma moça.

Essa italiana, mãe do Xandinho e da Norma, era gorda, como de praxe são as mamas italianas, ficava dia e noite na cozinha fazendo todo tipo de comidas, e nos aniversários e no Natal ela fazia os mais variados doces e bolos, e nós a criançada vizinha éramos os primeiros a experimentar.

Ela tinha o prazer de cozinhar e ver a meninada comer. Sempre eu estava na casa dela, com os filhos, ajudando a enrolar os salgados, a enfeitar as balas e doces, e logicamente comendo de tudo.

A Norma era uma moça muito bonita, branca como o leite, olhos muito azuis e era personagem constante dos nossos sonhos de adolescentes.

Ela se casou jovem, e me lembro quando ficou viúva, e sem filhos.

E sendo viúva e ainda nova e bonita, quando ela frequentava os bailes dos finais de semana na quadra do Colégio Frei Deodato, depois Colégio São Francisco, hoje Colégio N.S.das Dores, nós, ainda jovens e solteiros, fazíamos fila e até brigávamos para dançar pelo menos uma música com ela, de rosto e corpo colado, moda daquela época.

Naqueles tempos, décadas de 50 e 60, moça solteira que se engravidasse e tivesse filho, e não se cassasse, virava alvo de interesses sexuais dos homens, especialmente dos jovens, restritos de muitas liberdades.

Mulher desquitada do marido ou viúva então, coitadas delas. Os homens solteiros ficavam atrás delas como urubu atrás de carniça. E só com más intenções, como se dizia na época. Ninguém queria namorar sério, noivar e casar, todos queriam tirar proveito sexual daquelas mulheres vulneráveis, desprotegidas pelas leis e condenadas pela sociedade.

Hoje, tudo isso é inadmissível, mas naquela época, naqueles tempos, o comportamento, os costumes e as leis eram outras. Ainda assim foram tempos muito bons, tempos que não voltam mais.

0 visualização