• Guilherme Cardoso

Não chores por nós Brumadinho!


Brumadinho está chorando. Todos os moradores e trabalhadores de Brumadinho choram a dor da perda. Eu também choro! E não tenho nenhum parente na cidade. Mas, não chores por mim Brumadinho. Nós é que temos que chorar por ti.


O choro é uma forma de lavar a alma.


A tragédia de Brumadinho foi algo sem precedentes. A televisão mostrou cenas dramáticas e desesperadoras da lama descendo o morro e invadindo casas e levando carros e pessoas.

Centenas de pessoas mortas, e outras ainda desaparecidas. A lama da morte levou a vida de tantas pessoas e machucou a alma de tantas famílias que ficaram órfãs de seus filhos, de seus membros. É uma ferida que nunca mais se fechará.


Os sobreviventes sabem disso.


Além das vidas, perdas materiais foram enormes, incalculáveis. A Vale, responsável por tudo isso, promete pagar, reconstruir, ressarcir a todos pelas suas perdas. Difícil de acreditar.

Anos vão se passar, promessas vão ser esquecidas, palavras o vento leva.


Vejam outras tragédias, que ficaram ou já estão indo para o esquecimento. Mariana já tem três anos, ninguém recebeu nada. Sessenta e nove mortos em 1971 no desabamento da Gameleira e ninguém foi indenizado. 48 anos depois. Assim é a Justiça neste país.


Grupos estão formados para tentar uma solução para a situação da cidade. Ministério Público, Associação de Moradores e outras ONGs fazem de tudo para forçar a Vale a se comprometer oficialmente com a recuperação das perdas.


Estamos solidários com a dor de Brumadinho. Quem não está? Mas uma pergunta não quer calar: o que será da cidade de Brumadinho depois que todos os corpos forem encontrados, depois que os bombeiros forem embora, as emissoras de televisão saírem do local, a imprensa deixar de noticiar e lembrar a tragédia?


Com certeza Brumadinho ficará no esquecimento e no total abandono. Outros fatos graves vão acontecer em Minas e no país, novas tragédias diferentes, e em outros lugares, infelizmente se repetirão, e os olhos da imprensa se voltarão para eles. E esquecerão da tragédia de Brumadinho. O que fazer então?


Eu quero dar um conselho. Posso?


É preciso que os moradores de Brumadinho saibam aproveitar ao máximo o momento de luto coletivo que estamos vivendo por causa da tragédia, e isso vai passar. Explorem e usem bem o espaço da imprensa ainda presente, e cobrem medidas concretas e documentadas para o futuro da cidade e dos habitantes, além é claro, de garantir as indenizações necessárias e obrigatórias. Tudo tem que estar no papel, e registrado.


Associação comunitária, ONGs e os moradores deveriam se reunir e exigir junto ao Ministério Público Estadual e Federal, e ao Governo de Minas Gerais, que a Vale pague o custo da implantação, criação ou transferência de umas duas empresas que empregam muitos funcionários para a cidade de Brumadinho.


Esta decisão pode ser tomada pelo Governador Romeu Zema.


Se o governador quiser, e ele tem poderes para isso, e a sociedade em luto aprova, ele deveria exigir da Vale a instalação de fábricas de calçados ou indústrias de confecções na cidade, com o Estado isentando essas empresas de impostos por uns 10 anos, ficando a Vale com a obrigação de ressarcir esses tributos aos cofres públicos.


Quando falo em fábricas de calçados e confecções é porque elas, normalmente, empregam centenas de pessoas, e é isto que Brumadinho precisa para sobreviver.


Esta seria uma forma concreta e definitiva de dar opções de trabalho aos moradores de Brumadinho e reduzir a dependência que a cidade tem com a exploração de minério, mantendo viva a sua economia.


Não é muita coisa para a cidade, por mais que se faça jamais serão trazidas de volta as vidas que se perderam no lamaçal de resíduos de minério.


Por mais que se faça materialmente, a dor, a saudade e o choro não vão passar.

1 visualização