• Guilherme Cardoso

No tempo das Repúblicas


Até a década de 60 era muito comum as repúblicas de rapazes em Belo Horizonte. Muitos jovens vinham das cidades do interior de Minas para estudar ou trabalhar e se hospedavam nas chamadas Repúblicas, quase sempre no centro da cidade ou nas proximidade da Rodoviária.

Entre 1968 e 1969 eu morei em duas repúblicas. A primeira na Rua Parús no Bairro Renascença, perto da antiga Cia Renascença Industrial, num barracão alugado com mais dois colegas de trabalho. O Arnaldo Ferreira e o Nicolau.

A outra República era localizada na Av.Pedro II, logo no seu início. Dali eu ia e vinha a pé para o trabalho no Banco.

Esta república era em um sobrado de dois andares, e o nosso grupo de 7 homens, era no andar de baixo. E era gente de todo tipo. Idades diferentes, educação diferente, personalidades as mais variadas e objetivos de vida também.

As camas eram quase encostadas umas nas outras, não havia armários, nem guarda roupas para ninguém, calças e camisas eram dependuradas na cabeceira das camas, os sapatos debaixo das camas, e o cheiro e o chulé de quem não tomava banho todos os dias era insuportável.

A maioria estava ali para trabalhar ou estudar, outros estavam ali simplesmente para enganar, para uma aventura da juventude, sair de casa, largar os pais no interior e não fazer nada de útil na cidade grande. Apenas beber, farrear e gastar a mesada recebida.

Nós pagávamos uma empregada que arrumava mais ou menos a casa e fazia o almoço para os 7 homens, e cada um vinha almoçar em um horário.

E a falta de educação e o desrespeito entre todos era grande. Quem chegava primeiro para almoçar, quase sempre comia um bife a mais que o outro, ou repetia mais de uma vez, prejudicando os que vinham mais tarde.

E para não acontecerem brigas, a gente usava da delicadeza, da boa conversa, de uma gorjeta extra e cativava a empregada para separar e esconder nosso prato de comida.

Eu trabalhava de dia e estudava à noite no Colégio da AEC na Rua Curitiba, e quando voltava, doido para dormir, muitas vezes tinha que deitar, cobrir a cabeça e aturar a luz acesa e as músicas, as cantorias e as conversas de outros que apenas trabalhavam.

Esse grupo de 7 pessoas mudava durante o ano todo, uns chegando outros saindo, ninguém era amigo de ninguém, nesse lugar eu tinha um colega de trabalho, o Gari Coutinho, vindo da cidade de Papagaios, interior de Minas.

De segunda a sexta-feira o almoço era na República e a janta quase sempre era no Restaurante Rosário na Av.Paraná, entre R.dos Caetés e R. dos Tupinambás. Onde o prato favorito e mais barato era o Risoto, uma mistura do que sobrou de outros pratos, ou então no Café Palhares, na R.Tupinambás, onde se comia o prato feito chamado Kaol, ou seja, carne arroz, ovo ou linguiça.

Nos sábados e domingos e feriados eu ia ora para a casa do meu irmão Ignácio que ainda morava na Rua Sílvio Romero na Pompeia ou na casa da minha irmã Aparecida no bairro João Pinheiro, onde meu pai também morava.

Conto isso para que fatos, pessoas, personagens, casos e causos não se percam no tempo e fiquem gravados na memória e na história para novas gerações conhecerem que existiram tempos passados, tempos que não voltam mais.


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