• Guilherme Cardoso

O "assalto" à cozinha dos padres


Debaixo da igreja do Bairro Pompéia, em Belo Horizonte, havia o salão de festas da comunidade religiosa. Muitos anos atrás era o cinema do bairro. Depois, já nos anos 60, o espaço era utilizado para festas, alguns shows musicais e a apresentação de peças teatrais por entidades católicas.


As pessoas assistiam os espetáculos em banco de igreja, de madeira, sem almofadas, nenhum conforto. No salão cabiam umas 300 pessoas sentadas. O palco era simples, tinha uma grossa cortina vermelha que abria e fechava no início, nos intervalos e no final das peças encenadas.

Quantas peças bíblicas, dramalhões e comédias foram apresentados naquele local nos anos 60 e que eu vi, atuei e em outras fui diretor.


Logo atrás do palco, havia um espaço onde ficava a gráfica da paróquia. Ali que se imprimiam todos os papéis, documentos e convites da igreja. Tudo no processo artesanal. Letras e números em chumbo e textos eram montados manualmente. Ao lado, tinha uma porta, sempre trancafiada, que dava para um longo corredor do convento dos padres capuchinhos.


Era terminantemente proibida a entrada de leigos. Era uma total clausura. Um lugar de silêncio, reclusão e oração dos padres e seminaristas, estes se preparando para o sacerdócio. Ai de quem se atrevesse a entrar ali, sem autorização expressa. Era excomungado para sempre, sua alma estava condenada ao inferno.


Neste longo corredor, que se transformava num quadrado, havia o refeitório dos padres. A cozinha era enorme, com aquelas grandes geladeiras, tipo frigoríficos de açougues, cheias dos mais variados tipos de comida. Muita coisa a gente sabia que tinha lá dentro, macarronadas já prontas esperando temperos, queijos de todo tipo, salames, salsichas, presuntos, carnes defumadas e vinhos da melhor qualidade. Outras comidas boas a gente imaginava. Coisas que jamais havíamos experimentado.


Os padres sempre tiveram fama de comer bem. Ainda mais os capuchinhos, maioria de origem italiana. E nós, adolescentes e famintos, sofríamos com aquele gostoso cheiro que vinha da cozinha, especialmente nos domingos pela manhã, quando jogávamos uma pelada no campo do convento, ao lado da cozinha. A boca da gente ficava cheia dágua e a mente cheia de desejos de cometer pecados. Não pecados mortais, mas o pecado da gula. Desejos de um dia assaltar, no bom sentido, a cozinha dos padres e comer tudo que lá tivesse.


Uma noite decidimos realizar a façanha e cometer o pecado. Lá fomos eu, o Nem e o Chita. Tudo foi decidido de repente, numa noite, quando estávamos utilizando a gráfica para imprimir ingressos para a próxima peça teatral a ser apresentada pelo grupo de teatro da JUF, do qual nós três fazíamos parte.


Já era tarde, cerca de 23 horas, quando notamos que a porta da gráfica, que dava acesso aos corredores do convento. Por algum descuido, estava destrancada. Aí, a nossa imaginação correu solta. Começamos a pensar: Como chegar até ao refeitório dos padres naquela escuridão dos corredores sem ser notados. Afinal, só queríamos comer algumas das comidas que faziam parte do cardápio dos padres e dos nossos desejos impossíveis. Não queríamos mais nada.


Sem perder tempo, abrimos a porta, deitamos naquele piso frio de marmorite, e no silêncio da escuridão, e cheios de medo, nos arrastamos feito cobras, respiração presa, como um nadador debaixo dágua. O tempo que levamos até alcançar o refeitório e a cozinha foram uns cinco minutos, mas pareciam horas intermináveis de pesadelos. O pecado que cometíamos, o risco de sermos apanhados, o perigo da excomunhão, meu Deus! Ser excomungado era como perder toda honra, não poder mais ir nas missas, ser mandado em vida para o inferno.


Mesmo assim, a impetuosidade de adolescentes, a curiosidade, e acima de tudo o desejo de saciar a fome e provar alimentos que só conhecíamos em filmes, nos levou a concretizar o ato. Iluminados por uma fraca luz deixada acesa na cozinha, abrimos as geladeiras e fomos cutucando todas as panelas e embrulhos que imaginávamos ter alimentos guardados.


Comemos macarrão cru, queijo de todo tipo, muzzarela, coxas de frango congeladas. Sem ver o que comíamos, mordemos bisnagas de lingüiça defumada, demos várias goladas nos puros vinhos tintos servidos nas missas. Não demoramos mais que uns 10 minutos na cozinha.


Felizes pelo sucesso e saciados na fome e na curiosidade, saímos como entramos nos corredores, arrastando como lagartixas pelo corredor, e deixando atrás de nós pedaços e restos de alimentos consumidos na pressa. Ótimas pistas para os padres descobrirem os autores.


No dia seguinte era domingo, missa obrigatória, jovem nenhum deixava ir e comungar. Era uma exigência do frei Benigno, e uma espécie de permissão para poder jogar a pelada das 10 horas com os seminaristas. E este era o momento mais esperado por todos nós durante a semana. Os jovens eram muitos, e só seis jogavam no pequeno campo. E ficar fora, não ser escolhido para jogar era uma grande frustração.


Uma das condições para ser escolhido e jogar futebol, era preciso comungar. Para comungar, era preciso confessar. E como confessar o pecado do assalto à cozinha dos padres naquele sábado? Difícil. E Não jogar pelada, pior ainda!

A confissão acontecia na hora da missa. Os confessionários eram de madeira, o padre lá dentro sentado, a gente ajoelhava e contava os pecados. A fila era sempre grande. Eu, o Nem e o Chita, não sabíamos o que fazer. Contar o pecado ou não? Chegou a hora da comunhão, a dúvida persistia e não confessamos.


Na fila da comunhão, nós três ficamos de fora. Os olhos do frei Benigno se fixavam em nós, parecendo que ele sabia o que nós tínhamos feito na noite anterior. A missa terminou, ele vem em nossa direção, nos chama para uma conversa. Exigiu de nós uma confissão individual, contamos o grave pecado. Fomos perdoados! Ufa, que alívio. Recebemos centenas de Pai Nosso como penitência e quatro domingos sem jogar futebol.


E juramos nunca mais repetir o pecado da gula.

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