• Guilherme Cardoso

O dodge 39 do Trio Los Siete


Num desses momentos extremos de imaginação e falta do que fazer, na década de 60, lá no bairro Pompeia em Belo Horizonte, decidimos criar um grupo dentro do grupo da JUF, e para ser criativos, inventamos o nome de Trio los Siete.

Pura gozação. Contrariando o próprio nome, o grupo não era composto por três, nem sete pessoas, mas sim de cinco jovens que cansados de andar a pé ou de ônibus, queriam se unir e comprar um automóvel.

Naquele tempo era normal dizer automóvel.

Pensando em resolver este grave problema de condução, reuniram-se Isaías Câmpara Neto, Ari Valter Boscatti, João Alves Pereira Filho, José Luiz Ribeiro e eu, e compramos um velho mas bem conservado Dodge 1939, preto, poltronas de couro, pneus finos, iguais de bicicleta, bem parecidos com aqueles carros usados pela máfia nos filmes americanos.

Mesmo depois dos conselhos do senhor Natalino, pai do Isaías,totalmente contra essa maluquice.

Como era de praxe, o vigário capuchinho da matriz de N.S.do Rosário da Pompeia, frei Filipe batizou o nosso automóvel com água benta.

Adolescentes e impacientes, queríamos resolver de uma vez um problema que nos afligia, pois íamos a muitas horas dançantes e bailes em clubes nos fins de semana e um dos problemas que a gente enfrentava era a dificuldade de voltar para casa altas horas.

Os ônibus, que já eram poucos na época, paravam de circular onze horas da noite. E aí, ou a gente deixava a festa mais cedo ou ficava na rua esperando o primeiro ônibus da manhã seguinte., que só vinha às 5 horas.

O automóvel que compramos era vistoso, confortável e abrigava facilmente os cinco do Trio Los Siete

Só não resolvia a questão de quem seria o motorista. Ou melhor: os motoristas, já que todos queriam estar ao volante. Somente o Isaías tinha habilitação.

Outro problema, que sempre terminava em discussões, quase em brigas, era um ou outro ter de aceitar voltar a pé ou de ônibus quando alguém do grupo arranjava namorada nas festas e queria fazer bonito e levar a moça para casa de automóvel.

Sem contar a quantidade de vezes que por defeito ou falta de gasolina a gente tinha que empurrar o carro. Sem contar com os desentendimentos na hora de dividir as despesas do carro, como gasolina, óleo, pneus.

Outro problema era decidir na porta de quem o automóvel ficaria estacionado, e o Isaías ganhava sempre pois sua casa na rua Arcos era a única que possuía garagem, já que o pai dele tinha um furgão anos 50.

Por esses e outros motivos, o sonho e o desejo realizado de ter a posse de um automóvel dodge 39 durou pouco mais de dois meses.

Mas, a amizade e o companheirismo daqueles cinco jovens que compunham o Trio Los Siete permanece até hoje, com aqueles abençoados que resistem ao tempo.

Tempo de saudades, tempos que não voltam mais.

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