• Guilherme Cardoso

O eixo de 180 graus


Meu primeiro emprego oficial e de carteira assinada foi na Casa Abreu, hoje Centro Ótico.Antes eu havia trabalhado três meses na Dental Santiago como entregador.

Quem era admitido para trabalhar na Casa Abreu, passava obrigatoriamente por uma espécie de trote, um batismo, uma prova de fogo para avaliar o estado de espírito, o comportamento, as reações do novo funcionário.

Dava para saber se o sujeito era bom temperamento ou estopim curto. Era um ritual dos antigos com os novatos.

A “pegadinha”, como se diz hoje, era previamente combinada com o Celso Garcia, que tinha uma pequena ótica na Rua da Bahia esquina com Rua Goiás, onde era a redação e as oficinas do jornal Estado de Minas.

Além de ótico, Celso Garcia fazia jingles, as músicas de propaganda, e gostava de cantar e compor. Gravou lindas músicas. Uma delas, Praça Vaz de Mello, foi composta em homenagem ao Bairro da Lagoinha.

O ritual da “pegadinha” funcionava assim. No primeiro dia de trabalho, o Orlando Victor da Casa Abreu, determinava que o recém-admitido fosse até a loja do Celso Garcia buscar um eixo de 180 graus, e não servia o de 90 graus e que tivesse muito cuidado para não deixá-lo cair.

Sem conhecer nada de ótica e suas ferramentas de trabalho, o cidadão, quase sempre um jovem, saía, inocentemente pela Afonso Pena, para cumprir a missão. E cumpri-la bem. Afinal, era a sua primeira tarefa. Não podia decepcionar.

Sério e compenetrado, por dentro um gozador, Celso Garcia recebia o solene pedido, confirmava com o sujeito se o eixo era de 90 ou 180 graus e novamente fazia as recomendações de ter muito cuidado ao transportar aquela ferramenta.

Em seguida, traz uma alavanca de ferro, dessas que se usa na construção civil para furar buracos e coloca nas mãos do jovem assustado e sem coragem de questionar.

Ele até via que a ferramenta era uma alavanca, mas ficava na dúvida, imaginando se o objeto tinha algum uso na fabricação de lentes.

E uma ordem superior não poderia ser contestada. Aprendeu isso em casa e na escola. E vai ser assim quando servir ao Exército.

Desconfiado, cabreiro, pensando estar pagando mico, dando uma de Zé Mané, como se dizia na época, o jeito era descer a Rua da Bahia, virar a esquerda na Afonso Pena e seguir firme e cuidadoso por cerca de três quarteirões até chegar a Casa Abreu na Avenida Afonso Pena esquina com Rua São Paulo.

Enquanto caminhava pela Avenida Afonso Pena, as pessoas olhavam espantadas aquele jovem bem-vestido, calça, camisa branca, modelo Volta ao Mundo, e sapato novo, comprados para começo de trabalho, carregando aquela alavanca de ferro, pesada e comprida, uns dois metros, pela rua mais movimentada de Belo Horizonte. E na hora de grande movimento.

Suado e com as mãos doloridas, finalmente é hora de dar por cumprida a penosa tarefa. Entra na loja, sobe as escadas, sobre loja, alavanca no ombro, e na oficina de ótica é que nota o grande mico que pagou.

Uma grande gozação o espera, com os novos colegas dando gargalhadas de rolar no chão.

Os novos colegas explicam para o novato que aquela alavanca não tinha nada a ver com a produção de lentes para óculos e que a ferramenta servia mesmo era para furar buracos e para pedreiros na construção civil.

Não adiantava brigar, pois perdia o emprego. Só restava ter bom humor e esperar o próximo calouro, para dar o troco.

Eram histórias, casos e causos de Tempos que não voltam mais.

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