• Guilherme Cardoso

O país do faz-de-contas


Tem coisas que são muito estranhas no Brasil, especialmente na área judiciária. Há decisões de todas as instâncias, e até no Supremo Tribunal Federal que é difícil de entender. Indiferente do ponto de vista ideológica que a gente tenha.

Semana passada, até o ministro Marco Aurélio do STF comentou em tom de crítica a decisão da 3ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro que mandou retirar do juiz Flávio Itabaiana, o julgamento que apura a rachadinha no gabinete do então deputado e atual senador Flávio Bolsonaro.Segundo o ministro Marco Aurélio, a decisão vai contra o que foi definido pelo STF em 2018 sobre o foro privilegiado, e disse: Isso é o faz de contas no Brasil.

Tem toda razão o ministro, pois há muito o brasileiro sabe e conhece que este nosso Brasil é o país do faz de contas. Aqui, todo mundo faz de contas. Até nós mesmos, cidadãos sempre prejudicados com a incompetência e ineficácia dos nossos governantes, que aceitamos tudo numa boa, só reclamamos e nunca reagimos. Ou pelo menos uma só vez reagimos de verdade, naquelas manifestações espontâneas e pacíficas de 2013. Depois disso, mais nada.

Há anos temos uma das mais altas cobranças de impostos do mundo e recebemos pouco retorno do que pagamos. E o que pagamos para recebermos segurança, saúde e educação, somos obrigados a pagar novamente ao setor privado para termos esses serviços de qualidade.

E quem não tem recursos financeiros para isso, tem que usar o SUS, que é razoável apenas nas consultas e carente nas internações nos hospitais públicos. Se quiser uma educação de qualidade para os filhos há que pagar ensino caro e particular, e se desejar ter mais segurança pessoal e patrimonial, não há outra saída a não ser construir muros e cercas eletrônicas em sua casa, e até pagar uma ronda policial particular em seu bairro.

No Brasil se vive um verdadeiro faz de conta em tudo. Os Bancos cobram altas taxas de juros nos empréstimos e cartões porque sabem que muitos deixarão de pagar e não estão nem aí para o nome sujo.

Agora mesmo, neste momento grave da pandemia do coronavírus, estamos vendo o lamentável faz de contas das autoridades federais no atendimento às vítimas e ajudas aos governos e prefeituras. A cada instante se ouve que o Governo Federal liberou tantos bihões para a Saúde, tantos milhões para este e aquele Estado, e o que vemos são prefeitos e governadores reclamando, gente morrendo sem assistência e o quadro se agravando a cada dia.

O mesmo acontece como Auxílio Emergencial. Depois de mais de 3 meses, ainda há milhões de desamparados sem receber uma só parcela para sobreviver. E o governo bate cabeça para atender essas pessoas.

As leis no Brasil, e são muitas, proíbem um monte de atividades e elas funcionam normalmente na cara dos fiscais. Vendedores de rua, casinos clandestinos e lojas de jogo do bicho. De tempos em tempos a polícia dá uma batida e fecha um ou outro negócio ilegal. No dia seguinte eles volta a funcionar.

Políticos roubam, desviam milhões de reais de empresas estatais, são investigados e até julgados e às vezes condenados, mas utilizam de vários recursos, pedem habeas corpus, alegam foro privilegiado, ficam anos recorrendo até chegar ao STF. Que deveria ser a última instância de recursos. E não é.

Já vimos casos em que o político chegou ao STF foi condenado e recorreu com um embargo e acabou sendo absolvido.

Tem muita razão o nosso ministro do STF Marco Aurélio quando diz que isto é o Brasil, o país do faz de contas.

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