• Guilherme Cardoso

O Papagaio era quem dirigia o caminhão


Quem levava o time da JUF para os jogos, quase sempre era o Papagaio, apelido do Rômulo, porque falava demais, que tinha um caminhão de carroceria de madeira grande, bem velho, e que cobrava da turma somente a gasolina.

Era sempre uma viagem de alto risco, não havia segurança nenhuma. Enem fiscalização.

Na carroceria iam juntos, torcida e os jogadores. Todos cantando, gritando e mexendo com as pessoas que estavam no trajeto.

Um galanteio para a mocinha, uma gozação para o sujeito meio desajeitado.

Tudo ia na farra, até que um belo dia, ou melhor, uma bela tarde de muita sol, 3 horas mais ou menos, lá íamos na carroceria do velho caminhão do Papagaio, eu, Ari, Isaias, Niltinho, Segismar, o goleiro Chita, João Branco, Wilsão, o Zé Luiz, técnico João Gordo. 11 atletas e mais uns 10 torcedores descendo a rua Felipe Camarão em direção ao campo do Ferroviário, que ficava à direita antes do viaduto que passava pela linha de trem.

Naquele tempo, 1960, nem se pensava em Via Expressa e metrô.

O jogo seria às 4 horas da tarde no campo do Ferroviário, no Horto.

Todo mundo uniformizado, camisa e chuteira, caminhão lotado, todos em pé, a cantoria e as gozações de sempre.

Passava um cara na rua e o pessoal gritava: “Ô seu Zé, cabeça de Mané!” Ô dona Luzia, cabeça de melancia! Ô Cabeção, cabeça de mamão! E por aí se repetiam as brincadeiras e as provocações com quem andava pelas ruas e o caminhão seguindo em disparada.

Nesse dia porém, triste tarde, aconteceu o inesperado.

Alguém na carroceria mexeu, fez deboches com um sujeito chamado Edgar, bastante conhecido na região por seu tamanho, quase dois metros, força e ignorância.

O caminhão vinha da Pompeia, descia pela Rua 28 de setembro, e esse alguém, colega da Juventude Franciscana, e que nem era jogador, cismou de mexer com o Edgar.

Ô Edgar, cara de cavalo!

Ninguém imaginou que o Edgar tivesse escutado a gozação e levasse o negócio a sério.

Só que o Edgar não gostou das provocações e saiu correndo atrás do caminhão para pegar quem havia mexido com ele.

Vendo o Edgar correndo atrás do caminhão, desesperados, jogadores e torcedores, cerca de umas 20 pessoas dentro do caminhão, começaram uma gritaria, pedindo pelo amor de Deus que o Papagaio corresse mais

E o caminhão desceu em toda velocidade a rua Felipe Camarão e o Edgar atrás, correndo, bufando e babando de raiva.

A ideia salvadora do Papagaio era seguir direto atpé a avenida Silviano Brandão, não parando perto do campo Ferroviário para o Edgar não nos pegar.

Mas a sorte não estava com a gente naquele dia.

Como a passagem debaixo do pontilhão só passava um carro de cada vez, não é que nesse momento vinha outro carro da av.Silviano Brandão e o Papagaio teve que para o caminhão.

Aí foi um Deus nos acuda.

O Edgar alcançou o caminhão. Bufando de raiva e cansaço, ele pulou pra dentro da carroceria do caminhão, e sem saber quem tinha feito as gozações contra ele, o maluco Edgar saiu distribuindo pescoção pra todo lado em quem estava na carroceria.

Não sobrou ninguém no caminhão, todo mundo apanhou.

Apenas o motorista Papagaio se salvou, pois se trancou na cabine, todo borrado e rezando pra todos os santos.

Nós, os jogadores e os torcedores, Os demais, torcedores e jogadores uniformizados, saímos em disparada, sem olhar para trás em direção ao campo do Ferroviári para o jogo que ia começar às 4 da tarde.

São casos e causos, de bons tempos. Tempos que não voltam mais.

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