• Guilherme Cardoso

O Rádio nos Anos 50


Quando a luz elétrica chegou lá em casa, 1958, e com ela o rádio emprestado pelo Miguel, o cunhado, a vida ficou mais alegre.

À noite, a gente sentava em volta da mesa, rádio no centro, ligado à tomada aérea, o Benjamin, uma única lâmpada de 60 velas no teto, iluminava tudo e a todos.

Soam os primeiros acordes de O Guarani, de Carlos Gomes, prefixo da Voz do Brasil. Às 19 horas em ponto começava a transmissão. Era onde a gente ficava sabendo das coisas, do clima, dos acontecimentos políticos, centralizados no Rio de Janeiro, Capital Federal. A seguir, vinha o programa A Hora do Fazendeiro na Rádio Inconfidência, que falava de bois, plantações, cotações do milho e do café, apresentado pelo agrônomo João Anatólio Lima, pai do Jairo Anatólio Lima, um dos mais importantes locutores esportivos de Minas.

Depois da Voz do Brasil e da Hora do Fazendeiro, em que se ouvia um pouco de tudo, a diversão noturna eram as novelas radiofônicas. Quem é daqueles tempos deve se lembrar de Jerônimo o herói do sertão, O direito de nascer, o Santo e outras que não me veem à memória. Nas quintas-feiras à noite, o programa imperdível era a PRK30 da Rádio Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro. Um programa humorístico de Haroldo Barbosa e Castro Gonzaga, que contavam piadas e faziam várias imitações.

Quando eu era garoto, na Pompeia, João, um primo do meu pai, vinha todo final de semana de Nova Lima, almoçava, jantava e virava a noite falando dos parentes e contando casos lá em casa.

Ele sentava a beira da cama do meu pai e ia desfilando histórias de todo tipo. Mentia e exagerava muito. As histórias de assombrações eram as que eu mais gostava. O problema era dormir depois.

Esse João era um cara super inteligente. Não tinha estudo, mas possuía uma habilidade enorme. Sabendo que eu gostava muito de cinema, um dia, ele fez uma máquina de passar filmes para mim. Toda de madeira, com manivela para rodar os filmes, dentro uma lâmpada comum e uma lente de óculos de grau, para aumentar as imagens.

Para ter filmes para rodar nesta máquina artesanal, eu buscava pedaços de filmes, fitas celulóides, jogados no lixo por Thieres, que era um pequeno distribuidor no Bairro Santa Tereza, no início da Rua Mármore. Recolhia os retalhos, emendava os pedaços com fita adesiva, colocava numa manivela de soltar papagaios, rodava os filmes e exibia na parede de casa para os meninos vizinhos. Naquelas noites eu virava o dono do pedaço.

Saudosos tempos que não voltam mais.

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