• Guilherme Cardoso

O sonho de ser Coroinha


Os coroinhas eram os ajudantes dos padres durante as missas. Eram sempre dois garotos, um do lado direito do altar, outro do lado esquerdo, devidamente paramentados e com palavras em latim, bem decoradas, na ponta da língua. Quando o padre celebrante dizia: Dominus Vobiscum, os atentos e comportados coroinhas tinham que responder em alto e bom som: Et cum spiritu tuo.


Na hora da Consagração, eram os coroinhas que pegavam as galhetas, as duas jarrinhas com água e vinho. Um coroinha derramava a água em uma bacia para lavar as mãos do celebrante e depois colocava um pouco no cálice para misturar ao vinho. O outro coroinha despejava o vinho e com a toalha, o manustérgio, enxugava as mãos do padre. Quando o padre erguia a hóstia e o sangue de Cristo consagrado, era o coroinha do lado direito quem fazia soar a campainha, o sino, para alertar os fiéis sobre aquele momento solene.


Ser coroinha e ajudar o padre nas missas era o sonho de todo garoto entre os sete e 12 anos. E tocar a campainha na hora da consagração era o reconhecimento de um bom trabalho.

Na comunhão, a hóstia não era dada nas mãos, como hoje, e sim colocada na boca dos fiéis. E um coroinha ficava ao lado do padre, colocava a patena, um pires de prata, debaixo do queijo de quem recebia a hóstia, para evitar que ela pudesse cair ao chão. Era profanação deixar a hóstia cair, e era pecado mastigar a hóstia. Tinha que esperar ela derreter na boca.


Quem não era coroinha, morria de inveja deles. A boa inveja.


Eles eram considerados especiais entre nós crianças porque tinham algumas regalias que a maioria dos meninos sonhava ter. Uma dessas regalias era os paramentos que eles usavam para ajudar na missa: túnicas branquinhas, rendadas, bem limpinhas. Muito diferente das roupas que a gente usava.


Outro privilégio era o lanche que os coroinhas tomavam aos domingos depois das missas no refeitório dos padres. E que lanche! Pão com salame, grandes pedaços de queijo e sempre um copo de leite puro e gelado. Aquilo para nós, envolvidos numa pobreza total, era um consumo quase impossível.

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