• Guilherme Cardoso

O Teatro na Pompeia


Naqueles anos 50 e 60, havia pouca coisa a se fazer em Belo Horizonte, ainda menos nos bairros da periferia como a Pompeia.

As diversões populares e que a condição financeira dos moradores se ajustaavam eram o cinema do Salão Paroquial, depois o Cine Pompeia já com cadeiras de cinema, tela grande e bons filmes, algumas apresentações esporádicas de circos com apresentações de bichos, palhaços e até luta de boxe amador. E em uma área na rua Fluorina, entre ruas Engenho Novo e Ouro Branco quase sempre tinha um Parque de Diversões funcionando. Quem podia, e eram poucos, buscavam diversões no centro da cidade.

As peças teatrais apresentadas no Salão Paroquial, após a inauguração do Cine Pompeia em 1959 sempre tiveram uma enorme frequência por parte dos moradores da Pompéia e bairros vizinhos como Vera Cruz, Esplanada, Abadia e São Geraldo. O ano todo havia peças sendo exibidas, e por serem teatro amador, os preços eram baixíssimos. Todos podia pagar.

Entre 1961 e 1967, o grupo de jovens da Juventude Franciscana apresentou mais de 20 peças de todos os estilos. Desde dramas, comédias, e temas bíblicos, este sempre com o acompanhamento de algum padre capuchinho. Frei Clemente, Frei Emílio e principalmente Frei Leopoldo Maria estavam sempre dirigindo peças bíblicas.

Assim como eu era apaixonado por rádio e cinema, muito cedo comecei a fazer teatro, ora escrevendo curtas esquetes, depois atuando como ator e mais vezes dirigindo peças teatrais, que na época fizeram grande sucesso no bairro e onde eram exibidas, como o dramalhão O Falsário e a comédia A Casa dos Fantasmas. E um detalhe curioso hoje, é que na época, os padres capuchinhos custaram a liberar a peça O Falsário, porque na história tinha um personagem que se matava, cometia suicídio e os padres não queriam que isso fosse mostrado no palco.Com muita argumentação e até ameaças de não fazermos mais teatro no bairro, houve3 a permissão.

Durante esses seis anos de teatro no bairro, muitas peças eram realizadas pela dona Maria Fontoura Dutra, destacada figura da comunidade, grande conhecedora das artes, e que dividia o calendário anual de apresentações com a Juventude Franciscana e com os padres diretores, Frei Emílio, Frei Clemente e Frei Leopoldo Maria. As peças teatrais dos Capuchinhos eram super produções para a época e para o bairro. E por serem bíblicas, tinham cenários grandiosos, bem produzidos, vestimentas coloridas e luxuosas.

E para trabalhar nas peças dos Capuchinhos como da dona Maria Fontoura Dutra, havia uma expectativa entre nós da JUF, e uma satisfação enorme quando éramos escolhidos. Com os três eu sempre tive o privilégio de trabalhar em várias peças, ora como ator, e algumas vezes dividindo a direção.

Para realizar uma peça teatral, quem participava tinha de fazer de tudo. A gente pintava os cenários, arranjava os figurinos da peça, imprimia os ingressos na gráfica da Igreja, pintava as faixas para colocar nas ruas e uma principal que ficava na frente do Salão Paroquial com o título da peça, os dias e os horários. Mas dava prazer.

Foram muitos os atores amadores que participaram das várias peças teatrais no bairro da Pompeia. Vou citar alguns, aqueles que estavam em quase todas as encenações. As irmãs, Ieda e Ione Campello, José Luiz Ribeiro, João Alves Pereira, Wilson Adriano Faria, o Ném, Luiz Eustáquio Gomes, o Chita, Vitório Ângelo Baldi, Antonio Expedito Filho, Maristene, Ari Valter Boscatii, Maria José Dutra, , Hilda Ferreira.

Inesquecíveis foram as peças apresentadas ao longo desses 6 anos., e lamentavelmente de quase nenhuma temos mais que lembranças e algumas anotações em Ata da JUFe que está em meu poder.Sabemos que todas as peças teatrais foram fotografadas, algumas pelos padres Capuchinhos e que desapareceram no tempo, e outras, a maioria foram tiradas pelo saudoso José Moreira, morador na rua Iara, quase esquina de Sílvio Romero, o fotógrafo oficial do bairro, e que me parece não foram devidamente guardadas pela família.

São lembranças de fatos vividos em velhos tempos que não voltam mais.

Este e outros casos e causos estão no livro de minha autoria No YTempo dos Capuchinhos editado em 2011.

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