• Guilherme Cardoso

O Velho contra o Novo


Quem de nós, pais ou avós, não fica atormentado e impaciente com a quantidade de horas que filhos ou netos passam curtindo televisão, plugados no computador ou ligados nos celulares?


Que negócios estranhos são esses de lan house, Ipod, Iphone, Mp4, Xbox de que tanto falam? Onde encontram tanto assunto para blogar dia e noite, enviar “torpedos” para tantos coleguinhas?


E que amigos virtuais são esses, dos chats e salas de bate-papos, que nunca nos são apresentados, que entram, circulam e saem da nossa casa, sem ao menos perguntar quem somos? Deixando a gente com caras de bobos, autoridade perdida.


Olha, eu já impliquei muito com filhos e depois com o neto, tentando convencê-los que televisão demais é ruim, que jogos no computador fazem mal à saúde, que internet em excesso aliena as pessoas e que ficar o dia todo com o celular ligado causa desvios de comportamento, problemas na audição e aumento nas despesas da casa.


Cansei de me irritar com os pirralhos e adolescentes dormindo tarde, vendo filmes violentos na televisão. Tempo perdido. Não mais me intrometo nos isolamentos nos quartos, namoros virtuais. Não interfiro mais nos chats, nas salas de bate-papo, nem proíbo ou critico os “torpedos” enviados e recebidos a toda hora nos telefones celulares. Já lhes falei tantas vezes dos perigos e dos crimes da internet, dos vigaristas e bandidos virtuais, dos pedófilos travestidos de amigos. Eu, a mãe e toda a mídia. Desisti.


Joguei a tolha no bom sentido. Não quer dizer que agora não me preocupo com os jovens, dei-lhes liberdade total, não fiscalizo mais o que estão fazendo. Continuo na espreita. Dissimulado, como detetive.


Apenas mudei de estratégia, deixei de ser um chato, refleti. Parei pra pensar. Voltei no tempo. Afinal, foi lá de trás que viemos. Nós, os mais velhos, os coroas, não eles, os jovens. Eles vieram do agora.


Para acalmar, lembrei-me do que fazíamos antes, como crianças e adolescentes e agora. Fiz comparações. Na época, não ficávamos em casa, vivíamos na rua. Até altas horas.


Conversando e fazendo bobagens, sonhando e imaginando coisas. Andando e brigando com turmas. Soco no olho, pedradas na cabeça. E havia o perigo e o medo. De assombrações, batedores de carteira e ladrões de galinha. A violência era menor, mas havia.


Pedófilo era tarado e criança pequena tinha que ficar esperta. Antes, o perigo era o mundo lá fora. Agora, é a internet dentro de casa.


Naquele tempo, mães se preocupavam do mesmo jeito de hoje: “filho, não fique até tarde na rua, cuidado com as amizades, não vá beber, fuja das drogas”. Pais sonhavam ter os filhos brincando em casa, o mundo lá fora é perigoso, não ensina nada de bom, esta era a mensagem passada. Bem parecida com os novos tempos. Diferente, apenas a tecnologia.


Anos 60 e 70, em que se amarrava cachorro com linguiça e a televisão era movida a lenha, jovens iam ao cinema, viam filmes violentos, mocinho e bandido, tiros pra todo lado, mortes a toda hora, de índios e assaltantes. Tudo sem motivo razoável e qualquer explicação. Pura banalidade. Como se vê hoje, na vida real, nos noticiários e novelas das seis e das oito.


Naquela época havia filmes de terror, drácula, frankstein e lobisomens, sangue jorrava por toda parte. Nem por isso nos perdemos, sobrevivemos, não viramos marginais.


Aceitemos de bom grado as tecnologias avançadas que estão aí e as outras que vem chegando. Sejamos amigos delas, como devemos ser dos nossos jovens, filhos ou netos.


O mundo de ontem não é o mesmo de hoje e nem será igual ao de amanhã. Haverá crianças e adolescentes, problemas, temores e preocupações. Existirão pais e mães novamente, sempre protetores. Temendo o presente, esquecendo o passado. E outra vez o conflito: o velho contra o novo.

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