• Guilherme Cardoso

Os azarados ganhadores de loterias


Entre os anos 50 e 60, meu pai ganhava a vida como cambista, ou seja, vendedor de bilhetes de loterias. Naquela época só existiam as Loterias Mineira e a Federal. A Federal fazia os sorteios do 1º ao 5º prêmio às quartas-feiras às 16 horas e a Mineira o sorteio era às sextas-feiras no mesmo horário.

Os bilhetes eram vendidos inteiros, cada um composto de 10 tiras que também podia ser vendidos individualmente. Os cambistas eram os vendedores menores, aqueles que adquiriam os bilhetes dos Distribuidores que compravam mais barato direto da Caixa Federal ou da Loteria Mineira e repassavam aos cambistas para vender em troca de uma pequena comissão.

E tinha um detalhe de risco. Os bilhetes que os cambistas não vendessem até a hora do sorteio, nas quartas e sextas-feiras, o prejuízo ficava com eles. Tinham que pagar ao Distribuidor o que tinha sobrado e torcer para que um dos bilhetes fosse premiado em alguma das modalidades, que eram muitas.

Com o número do bilhete em seu poder, o comprador ou o cambista poderia ganhar o prêmio maior, o primeiro prêmio e até o quinto prêmio, ou então ganhar um pequeno valor se acertasse a quadra, o terno, a dezena ou o número final. Acertando um dos mais fáceis, às vezes dava para recupera o valor do bilhete.

Por ser um vendedor de bilhetes durante anos, meu pai sabia de muitas histórias verdadeiras e muitos casos e causos que se tornaram lendas dos jogos de azar.

Um deles era do fazendeiro que há anos jogava nas loterias Mineira e Federal e não ganhava nada. Não acertava um número sequer, nem para recuperar o valor gasto com o bilhete. Um dia, tomou uma decisão. Eu vou comprar todos os bilhetes da loteria de São João, que era o maior prêmio da época e quero ver se ganho ou não. Um mês antes do início das vendas, ele veio a BH, foi à Caixa e soube que eram 40 mil bilhetes inteiros que a Caixa colocava à venda. Perguntou o valor, voltou à sua cidade e vendeu os dois mil bois que tinha na fazenda, que dava para comprar todos os bilhetes.

Não teve problemas. Pegou a camionete e trouxe tudo para a fazenda e colocou todos os 40 mil bilhetes dentro de um quartinho fora da casa, usada como paiol para armazenar milho. E ficou esperando o dia do sorteiro, 24 de junho, Dia de São João.

Na fazenda tinha um garotinho, de uns 5 anos, filho de um dos colonos, e que o fazendeiro gostava muito dele. Era como se fosse seu netinho. Brincando no terreiro, o garoto viu um bilhete saindo por debaixo da porta do quarto superlotado, e como era todo colorido, com imagens de São João, fogueira e balões, o menino pegou o bilhete e saiu com ele e levou para a sua casa. O fazendeiro nem se deu conta disso.

No dia do sorteio, ouvindo pelo rádio, o fazendeiro tinha certeza que agora ele ganharia todos os prêmios sorteados, e quando veio o resultado, não era que o primeiro prêmio foi o do bilhete pego pelo garoto e que agora estava com o caseiro? E que não era tão ignorante assim, e no outro dia deu no pé para a cidade e recebeu o grande prêmio.

Outro caso foi do sujeito que havia comprado um bilhete da Loteria Mineira, com antecedência de uns três meses, também um grande prêmio, guardou o bilhete no bolso do paletó no barracão que morava, e quando estava em BH trabalhando, e a mulher no interior, na roça, ele ouviu que o número que sempre jogava e era o do seu bilhete, era o do primeiro prêmio. Foi na telefônica, ligou para a casa do fazendeiro que chamou a mulher e em pratos de tanta alegria, disse a mulher: “ Maria, nós ganhamos o primeiro prêmio da Loteria. 10 milhões mulher. Agora estamos ricos. Pega um pouco de querosene, joga tudo no barraco, põe fogo e vem aqui para cidade”.

A mulher, obediente, e naquela época mulher obedecia o marido, botou fogo no barraco e quando chegou em BH, o marido logo perguntou: e aí mulher, fez o que lhe mandei? E o bilhete, quer estava no bolso do paletó, cadê ele? A mulher não sabia que o bilhete premiado estava no bolso do velho paletó e botou fogo em tudo.

Outro caso, este mais rápido, foi o sujeito que durante 50 anos de sua vida comprava sempre o bilhete da loteria mineira e da federal com o mesmo número. O cambista, que não era meu pai, sempre reservava esse número para o seu cliente. E ele nunca havia ganhado nada, mas insistia. Até que um belo dia, uma sexta-feira, quase na hora do sorteio e o velho cliente não vem buscar o bilhete pela primeira vez em 50 anos. O cambista, já seu amigo de tantos anos, resolve ir até sua casa lhe entregar o bilhete e quando se aproxima do portão, vê a casa cheia, muita gente chorando e vê que no caixão ainda aberto estava o seu velho amigo.

Muito abaldo, deu os pêsames à viúva e se retirou. Uma hora depois, às 4 da tarde, o primeiro prêmio da Loteria era o número do falecido. Depois de 50 anos.

Coisas da sorte. Por isso são chamados jogos de azar.

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