• Guilherme Cardoso

Os cinemas de BH


A maioria das pessoas tinha baixo poder aquisitivo nos anos 60. O que ganhavam não permitia ir aos cinemas no centro da cidade, que eram os melhores. Poltronas reclinadas e estofadas, som estéreo e em muitos, ar condicionado. Como alternativa, o jeito era frequentar os cinemas de bairros. Salas pequenas, assentos reclináveis de madeira, e refrigerado a base de ventiladores nas paredes.

Os lançamentos, os filmes recentes, chegavam primeiro nos cinemas do centro, e nos bairros eram exibidos meses depois, e em casas como o Cine Pompeia, que não pertenciam à rede de Cinemas eTeatros de MG, esses filmes chegavam a demorar mais de ano.

Quase todos os bairros tinham uma sala de exibição. O Cine Santa Tereza, no bairro do mesmo nome. O São Cristóvão, na Lagoinha. O Cine Santa Ifigênia, os Cines Odeon, Floresta Novo e Floresta Velho, na Avenida do Contorno, Bairro da Floresta. No Calafate, o Cine São José, no Santo Antonio, o Pathê, e no barro Preto o Cine Roxi. E outros mais.

Falando de cinemas, dá uma saudade danada lembrar das antigas e boas casas de espetáculos de Belo Horizonte, que a partir da popularização da televisão, foram desaparecendo. Cada uma era ligada a uma produtora de filmes.

O Cine Tamoio, na Rua Tamoios, entre São Paulo e Curitiba, passava filmes de preferência da Twenty Century Fox. O Cine Brasil, na Praça Sete, exibia mais os filmes da Warner Bros. O Cine Metrópole, na Rua da Bahia, esquina com Rua Goiás, onde hoje é o Bradesco, apresentava os filmes da Universal. O Cine Tupi, na Rua Tupis, onde é o Shopping Cidade, exibia sempre os filmes da Colúmbia. E assim por diante.

Para a exibição de um filme, havia também um ritual a seguir. Cada cinema do centro da cidade tinha um prefixo musical para tocar na exibição de um filme. Ao toque de três sinais consecutivos, a cortina vermelha no palco se abria acompanhada de um fundo musical. A expectativa era tanta, que quando a música acabava e a imensa tela branca aparecia na escuridão, a plateia batia palmas de emoção.

Começa o filme e com ele nossa imaginação viajava.

Quantos filmes fizeram sucesso nas décadas de 50 e 60, chamada a era de outo do cinema mundial.Foi quando surgiu a tela CinemaScope, tela grande, e surgiram os filmes épicos, como os 10 Mandamentos, Ben Hur, e os clássicos Os Brutos também Amam, Assim caminha a Humanidade, Cantando na Chuva e outros. O primeiro filme na tela grande de Cinemascope em BH foi no cine Tamoio, com o filme Quo Vadis, com Victor Mature, um filme bíblico. Eu estava lá, 1955.

Belo Horizonte tinha muitas casas de espetáculos, a maioria de grande porte. A média de assentos era em torno de 1,5 mil lugares. O Cine Brasil comportava 2,5 mil pessoas assentadas em três andares. E lotavam sempre. Havia o Cine Guarani, na Rua da Bahia, esquina de Avenida Álvares Cabral, o Palladium, na Rua Rio de Janeiro, o Cine Acaiaca, na Avenida Afonso Pena, o Cine Royal, que depois se tornou Cine Avenida. Hoje, ambos são igrejas evangélicas.

Na parte boêmia da cidade, havia os cinemas mais populares, para o povão. Como os Cines São Geraldo e Paissandu, próximos à Rodoviária, e o Cine Vitória, que virou México, na Rua Guaicurus.

A maioria dos cinemas da Capital era de propriedade do empresário Antonio Luciano Pereira Filho, dono da empresa Cinemas e Teatros Minas Gerais. Tanto no centro como em diversos bairros as casas eram de sua propriedade. Havia outros cinemas na cidade, chamados de alternativos. Passavam na maioria filmes italianos e franceses, e tinham pouca frequência. Eram os cines Art Palácio, na Rua Curitiba, o Cine Leão XIII na Rua Guarani, quase esquina com Rua Tupis, e o cine Candelári,, localizado na Praça Raul Soares.

Os shoppings-centers deram um fim definitivo nas grandes casas de espetáculos em Belo Horizonte.

Antonio Luciano não era dono somente de cinemas. Era também proprietário de milhares de terrenos, o Hotel Financial, fazendas no interior de Minas e a tradicional Usina de Açúcar Jetiboca em Ponte Nova. Dizem até hoje, que tantos eram os lotes de sua propriedade em Belo Horizonte, que para identificá-los, ele plantava eucaliptos nos terrenos. Era médico e tinha fama de sedutor de menores.

Na minissérie da TV Globo, Hilda Furacão, o personagem Antonio Luciano é citado, assim como o Cintura Fina, a Maria Tomba Homem, e a Loura do Bonfim, figuras lendárias de Belo Horizonte.

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