• Guilherme Cardoso

Quando o futebol era um esporte


Nas décadas de 50/60 e até 70, futebol era paixão e divertimento, ainda não era comércio, marketing esportivo, jogos comprados pela televisão, atletas ganhando fortunas.

Naqueles tempos, os times jogavam no 4-2-4, zagueiros eram beques, laterais eram half direito, half esquerdo, goleiro era keeper, meio de campo era centro médio, havia meias direita e esquerda, goleador era um center four ou centroavante e se atacava com dois pontas abertos, um na direita, outro na esquerda.

Faltas eram foul, bola na mão era hands, escanteio era corner, impedimento era off-side e penalidade dentro da área era e continua sendo penalty.

A bola era de couro, número 5, toda costurada e com bico para encher.Em cada jogo não tinha mais que 2 bolas no campo.Quando um jogador chutasse para fora do campo e a outra furava, tinha que esperar alguém ir lá fora buscar a bola.O jogo ficava parado.

Na Pompeia, times de várzea, Monte Azul, Cinco Estrelas, Planalto, Madureira, Ferroviário, Montila, Santos lá no Vera Cruz e outros.

Jogadores profissionais ganhavam pouco, concentração era só na véspera dos jogos e em hotéis baratos ou casas alugadas no Barro Preto, próximas dos campos de treinamento do Atlético em Lourdes e do Cruzeiro no Barro Preto. Já o América se concentrava em Santa Efigênia, perto do seu estádio.

O time ia para o campo de ônibus especial, e antes, alguns jogadores ainda comiam sanduíche no Café Palhares. Jogadores não se contundiam a toa.

O Café Palhares surgiu em 1938 na rua Tupinambás, onde continua até hoje. Como prato principal, está o Caol: carne, arroz, ovos e linguiça.

No fim de 1958, ouvimos pelo rádio, Brasil campeão do mundo pela primeira vez, na Suécia. Vimos jogos inesquecíveis em videoteipe, pela televisão, quase um mês depois.

Mesmo como atleticano eu vi a vitória maiúscula do Cruzeiro sobre o Santos de Pelé por 6 a 2, já no Mineirão. Vi esses dois jogos, ao vivo. Sem televisão.

Uniformes eram apenas dois. Um principal, outro reserva. Atlético, alvinegro, camisa preta e branca listradas, Cruzeiro, celeste, camisa toda azul, calções brancos.

Não havia comércio de camisas como hoje e jogador raramente trocava sua camisa com o jogador do outro time.

Os clubes tinham seu próprio estádio. Atlético no Bairro de Lourdes, onde se localiza o Shopping Diamond Mall, Cruzeiro no Barro Preto, América em Santa Ifigênia, onde hoje está o Supermercado Extra. Ali treinavam e se concentravam para os jogos.

Vi muitos treinos, os coletivos, como eram chamados. Titulares contra aspirantes. Muito disputados. Verdadeiros jogos. E jogadores não se machucavam por qualquer coisa, como agora.

Lembro-me de um jogo no Independência, entre Atlético e Cruzeiro. 1956. No primeiro tempo, empate por 1 a 1, o Galo precisava da vitória. Empate dava o título para o Cruzeiro.

Ubaldo Miranda, o Miquica, centro-avante negro, toma um rojão de foguete no corpo e sai de campo carregado.

No segundo tempo, ele voltou, todo enfaixado, feito múmia, e fez o gol da vitória. Foi carregado nos braços da torcida por 5 quilômetros, do Horto até a Praça Sete.

Naquele tempo, técnico não ganhava jogo. Mas batia nos jogadores que faziam corpo mole.

Como Yustrich, o Homão, que dava socos, agredia e botava os jogadores de castigo quando seu time perdia.

Atleta com ele, tinha de dar duro mesmo, correr atrás da bola como um faminto corre atrás de um prato de comida.

Dario Peito de Aço, artilheiro do Atlético é um bom exemplo. Começou a jogar futebol adulto, nenhuma habilidade, trabalhado pelo Yustrich, virou ídolo, foi à seleção de 1970, reserva do Pelé.

Naqueles tempos, artilheiro, goleador, era quem marcasse cinco, seis gols numa partida. Não no campeonato ou no ano inteiro.Pelé fez oito gols numa partida e Dario fez 10 quando jogava no Sport Recife.

Havia amor e garra pelo clube. Jogador que se prezasse, ao mudar de clube não jogava no time adversário. Tinha respeito ao respeito ao torcedor. William e Procópio foram exceções. Jogaram no Atlético e no Cruzeieiro.

Jogos eram somente aos domingos., dinheiro era escasso, Independência era o estádio.

Miguel, meu cunhado, já adulto, eu ainda garoto, ele cruzeirense fanático, me levava ao jogo e se o Galo ganhasse, e na década de 1950 ganhava todas, era discussão na certa, cada um para um lado, eu voltava sozinho do Horto até a Pompeia.

Ele fazia cara de bravo, prometia nunca mais vir comigo ao campo, semana seguinte novamente os dois juntos.

O caminho era o de sempre. Descíamos a Rua 28 de setembro, seguia a Felipe Camarão, passava debaixo da linha de trem, subia a Rua Pitangui, chegava ao estádio Independência, o Campo do Sete.

Mais tarde veio o Mineirão, em 5 de setembro de 1965, outros tempos, outros interesses.

Foi a época vitoriosa do Cruzeiro. Quem dava espetáculo eram Tostão, Dirceu Lopes, Piazza e companhia celeste. Como atleticano, tive e tenho algumas alegrias, muitas decepções.

Confesso que na década de 60 assisti muitos jogos do Cruazeiro.

De uns anos para cá, passei a gostar de futebol como show, como um espetáculo de teatro, de cinema. Gosto de ver pelas belas jogadas, muitos gols.

Mas continuo a ser Galo.

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