• Guilherme Cardoso

Quando o telefone valia ouro


Pouca gente se lembra, principalmente os jovens, aqueles nascidos à partir da década de 90, que houve um tempo aqui no Brasil que não havia celulares, nem internet, nem computadores, e que as linhas telefônicas que existiam era m os telefones fixo, que hoje quase ninguém tem.

Até o ano de 1996, as linhas telefônicas eram negociadas entre particulares e cotadas em dólar americano, chegando naquele ano a valer 1.500 dólares, o que daria hoje no câmbio atual uns 8.500,00. E a demanda era enorme. Havia mais compradores do que linhas telefônicas à venda.

A Telemig, que era a empresa estatal que detinha os poderes para vender e instalar as linhas telefônicas em Minas Gerais, quase não realizava nada. Uma vez por ano lançava um Plano de Expansão com determinada quantidade de linhas telefônicas e para determinadas regiões da cidade de BH. O interior de Minas sempre recebia menos linhas.

Quando a Telemig anunciava um Plano de Expansão a procura era imensa, filas dobravam o quarteirão da Rua Tamóios com Rua Rio de Janeiro e poucos eram os premiados. Era preciso fazer uma inscrição, dando nome e endereço de instalação e não havia garantia de quando o telefone seria instalado.

Quem comprava uma linha telefônica, residencial ou comercial pela Telemig, pagava o Plano em prestações mensais de até 36 meses, recebia também ações da Telemig, e às vezes o telefone só era instalado 4, 5 anos depois. Mas era um excelente investimento.

Em 1984, logo depois que aconteceu a crise imobiliária no Brasil, eu saí da Planear Engenharia, que fechou as portas em 1983, recebi uma boa indenização e entrei no mercado paralelo de aluguel, compra e venda de linhas telefônicas.

Quem me ensinou os primeiros passos no ramo foi o Ronaldo Ferreira, dono de uma das maiores empresas de compra e venda de linhas telefones, cuja sede era na Av.Amazonas,315, um andar inteiro, luxuoso, com várias moças atendentes.

Nós éramos amigos desde quando ele trabalhava no jornal Estado de Minas e era cliente do Unibanco onde eu trabalhava. Ele, como vários funcionários do jornal viviam pedindo empréstimos bancários, eu era o chefe do setor e facilitava e liberava o dinheiro com rapidez e sem muitas exigências, como fiadores.

Meu primeiro ponto de vendas foi no escritório de contabilidade do meu sobrinho Carlos Alberto, e a primeira linha comercial que eu usava era emprestada pelo meu cunhado Miguel.

Dois meses depois, abri meu escritório na Rua Goitacases, 115 e mais tarde, anos 90 em duas salas próprias na mesma Rua Goitacases, agora no número 375.

Foi um tempo bom, tempo de fartura e excelentes vendas no ramo de linhas telefônicas.Havia muitas empresas grandes, médias e pequenas no ramo, e a minha empresa, Guilherme tel Telefones era uma das pequenas, embora muitos a viam como uma das grandes. Isso por causa da boa qualidade no atendimento e na segurança dos negócios que eu oferecia aos clientes que vendia, comprava ou alugavam linhas telefônicas.

Quando havia alguma dúvida na transação, eu não pensava duas vezes. Devolvia o dinheiro na hora a quem se sentia prejudicado. E naquela época, já havia muitos comerciantes irresponsáveis, que compravam e não pagavam, ou vendiam e não entregavam. Por agir diferente eu era respeitado no mercado.

Esse mercado durou muitos anos, muita gente enriqueceu, outros quebraram por má administração e alguns deram o cano em seus clientes, quando a atividade de compra e venda de linhas telefônicas chegou ao fim em 1996, com a privatização da Telemig e a instalação de várias linhas na cidade.

Eu já imaginava que o fim do mercado estava próximo, reduzi meu estoque de linhas telefônicas, não perdi nada e nem permiti que meus clientes tivessem prejuízos, pois fui alertando a todos que se desfizessem de suas linhas como investimento.

Nessa época eu já havia investido em outras atividades com a loja de materiais elétricos Eletro Cidade e a Padaria Come Come no Barreiro.

Foi um tempo bom, inimaginável para gerações mais novas, mas um tempo feliz, tempos que não voltam mais.


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