• Guilherme Cardoso

Rebelião de jovens na Pompeia


As atividades da JUF eram muitas. Passeio e excursões de ônibus fretados para São Lourenço, Ouro Fino, Pimenta, Itaguara. Jogos de futebol contra vários times da cidade de BH. Os ônibus eram alugados com o Ildeu, dono da Viação Vera Cruz. Nes6ta época, o Fernando Pacheco, o Baixinho, que também trabalhava como palhaço e fazia dupla com o Vicente, era um dos motoristas da linha de ônibus.

O Grupo da JUF fazia exibição de peças teatrais durante meses no salão da Pompeia, no Convento das Irmãs no Vera Cruz, no Bairro Santa Tereza, na Igreja de São José.

E quando não havia peças de teatro, o salão debaixo da Matriz ficava aberto para outras atividades como o uso dos jogos daquela época, como a mesa de ping pong, os jogos de dama e xadrez e o totó, o futebol de mesa.

Como eu gostava de escrever, tinha facilidade com a língua pátria, escrevia versos e fazia sátiras, fui encarregado pelo frei Benigno para escrever o estatuto da JUF em 1964. Ainda tenho guardada a Ata deste evento de 30 de setembro de 1964. 56 anos passados.

A primeira diretoria tinha o Isaías Câmpara Neto como presidente, eu como vice.E como estávamos na euforia do golpe militar de 64, acontecido 5 meses antes, foi decidido uma Intervenção nesta diretoria, que não atendia aos reclames de mudanças.

Eu fazia parte de um grupo de jovens que não estava satisfeito com o trabalho da diretoria eleita e queríamos propor renovação na JUF, novas ideias, e ameaçamos rebelar.

A diretoria provisória, era composta por mim, pelo João Alves Pereira Filho, o João Gordo, o José Luiz Ribeiro de Souza, o Ari Valter Boscatti, o Hugo Mari, o Márcio Zaragozzi e o SegismarAlves.

Eu fazia parte de um grupo de jovens que não estava satisfeito com o trabalho da diretoria eleita e queríamos propor renovação na JUF, novas ideias, e ameaçamos rebelar. Desde jovem eu já era indignado com injustiças e privilégios.

Muitos dos jovens diziam nos apoiar, garantiram ir juntos até o fim. Confiamos que estávamos fortes. E decidimos protestar em uma das reuniões, tipo assembleia da JUF no salão paroquial.

Frei Venâncio, já falecido, era o dirigente da JUF, e mais tarde se tornou bispo

Para testar nossas forças, convocou esta assembleia, salão lotado, cerca de 150 jovens, moças e rapazes, fez sermão, disse que éramos um bando de comunistas, comedores de criancinhas, ameaçou excomungar, mandar para o inferno, quem ficasse do nosso lado.

Salão lotado, os 150 jovens em um silêncio de clausura. Quem teria coragem para expressar o seu apoio à nós?

Novamente a pergunta do frei Venândcio em alto e bom som: Quem estiver do lado desse grupo de rebeldes, queira ficar em pé e se manifestar.

Olhamos para os lados buscando respostas, ninguém se mexia, maioria de cabeça baixa, silêncio total, medo e respeito à religião, ao padre capuchinho, nenhum gesto solidário.

Sozinhos entre 150 jovens companheiros,, levantamos, ficamos em pé, os sete,seja o que Deus quiser, eu, João Gordo, Zé Luiz, Ary, Segismar, Márcio Zaragozzi.

Não cedemos e fomos punidos, humilhados, jornalzinho que eu publicava fora de circulação, nunca mais peladas com os padres, proibida a frequência ao Clubinho., nada de fazer teatro.

Naquele dia, só faltou excomunhão. O mundo parecia acabar.

Para nossa surpresa, o castigo durou só 30 dias. Fomos anistiados e voltamos à ativa.

Afinal, perdoar é divino e protestar é um direito.

Fatos acontecidos, vivenciados em um tempo que não volta mais.

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