• Guilherme Cardoso

Teatro era perigoso


Na década de 1960, Belo Horizonte vivia um momento de efervescência cultural.

Grêmios teatrais vinculados aos Diretórios Acadêmicos das universidades e faculdades eram referências em apresentar peças de cunho político e social.

Quase não havia companhias de teatro particulares, do setor privado, e o Governo não financiava, nem estimulava essas atividades culturais. Quem resistia e fazia teatro em Belo Horizonte eram pequenos grupos amadores, algumas faculdades e e escolas de bairros.

Embora a maioria dos cinemas da Capital tivessem no nome a expressão Cine e Teatro, nessa época não apresentavam shows, nem peças teatrais, apenas exibiam filmes.

Casa de Espetáculo em BH só havia mesmo o Teatro Francisco Nunes, da municipalidade, inaugurado em 1950, e que era palco de apresentação de várias peças.

Só mais tarde, em dezembro de 1964 surgiu o Teatro Marília, como mais uma interessante opção teatral.

A primeira peça exibida no Teatro Marília, que fica alí na Av.Professor Alfredo Balena, próximo do Pronto Socorro João XXII, foi Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues.

Apesar da repressão do Regime Militar à partir de 1964, o Teatro Universitário da UFMG, dirigido por Haydée Bittencourt era um dos grupos mais atuantes, apresentando peças montadas pelos alunos do terceiro ano do curso. Eu estudei um ano lá.

Jota D'Ângelo e Jonas Bloch comandavam um grupo chamado Teatro Experimental, ensaiando, apresentando e enfrentando os rigores do Regime Militar vigente.

Durante os mais duros momentos da Ditadura Militar, logo após a edição do AI-5, em dezembro de 1968, que determinava a prisão imediata de qualquer cidadão suspeito de atividades contrárias ao regime, o Teatro Experimental foi ousado ao montar a peça Oh, oh, Minas Gerais. Foi um marco na história cultura de Minas Gerais.

Escrita por Jota D’Ângelo e Jonas Bloch, a peça era um culto aos mineiros e seus compromissos históricos com a liberdade e em algumas apresentações exaltava a figura de Juscelino Kubitscheck, exibindo sua figura em grandes imagens em telão.

Oh, oh, Minas Gerais era uma clara provocação ao regime de exceção vigente e durante algum tempo ficou censurada, proibida de ser apresentada.

A peça era apresentada pelos principais atores e atrizes de BH, tinha muitos figurantes, entre os quais eu tive a honra de fazer parte.

Esse convite para fazer parte da peça, aconteceu porque eu trabalhava no Banco Agrícola Mercantil do Rio Grande do Sul e o Jonas Bloch, esse mesmo que ainda atua em novelas e é pai da Débora Bloch, ele tinha uma loja de móveis antigos na Rua Rio de Janeiro, esquina de R.Guajajaras, e era cliente do Banco.

Os colegas do Banco sabiam que eu fazia teatro amador na Pompeia e me apresentaram ao Jonas Bloch e este me convidou a fazer parte do Teatro Experimental, que era um grupo profissional e cheio de grandes nomes na época.

Eu fiquei pouco tempo no Teatro Experimental, porque uma noite, nós ensaiávamos uma peça chamada Os Dois Cegos, em que eu ia estrear como diretor, o outro era o Carlos Alberto Ratton como diretor de produção, no último andar do Edifício Helena Passig, alí na Praça Sete, e o pessoal do Dops chegou para prender todos nós considerados subversivos. Enquanto eles subiam pelos quatro elevadores, nós, informados pelo porteiro, descemos em galope pela escada.

Depois disso eu desisti de fazer teatro.

Esse Carlos Alberto Ratton, falecido ano passado aos 76 anos, iniciante como eu na época, se tornou grande escritor e diretor de peças, como Doroteia vai à guerra, premiada com o prêmio Moliére em 76, autor da novela Mandacaru na TV Manchete e alguns episódios da série Você Decide da Rede Globo.

Apesar da repressão da falta de apoio financeiro, alguns grupos teatrais resistiram e apresentaram excelente peças teatrais na cidade.

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