• Guilherme Cardoso

Tempos de romantismo na Pompeia


A década de 60 e início da década de 70 ainda era o tempo de muito romantismo. As pessoas eram ingênuas, muito simples, sem muito anseio por bens materiais, ter carros, ou mesmo morar num grande apartamento nos bairros mais elegantes da cidade.

O desenvolvimento econômico e social ainda engatinhava no Brasil, as oportunidades de bons empregos eram poucas, assim como o acesso às faculdades eram para poucas pessoas.

Nessa época, ainda se faziam as derradeiras serenatas ao ar livre, debaixo da janela da mulher amada. Onze horas da noite, o cantor apaixonado convidava uns três amigos com violão, violino e pandeiro, algumas vezes tinha saxofone, e tranquilamente, sem medo de bandidos, canções românticas, cheia de amor e poesia eram ouvidas à distância.

Os vizinhos mais próximos saiam no terreiro para ouvir a serenata, e só a mulher amada sempre demorava a abrir a janela do seu quarto. E quando isso acontecia, era o recado esperado de que ela aceitava o namoro.

Raras vezes tudo dava errado, a moça não aria a janela, a cantoria continuava até o bravo pai da donzela sair aos gritos botando a turma para correr. Mas era divertido.

Naqueles anos, namorar era um verdadeiro ritual, tanto para o rapaz quanto para a moça. Não se podia namora na rua, tinha que ser em casa, no início no portão, só mais tarde, meses depois, para dentro de casa. E sempre sob os olhares de alguém da família.

Para pegar na mão da namorada às vezes precisa de uns dez encontros, e assim com o primeiro beijo, isso quase sempre acontecia no escurinho do cinema, num descuido de atenção da irmã ao lado.

Os encontros de namoro tinham dias e horários definidos, às terças, quintas, sábados e domingos de 7 às 10 da noite. E encontrar com a namorada fora desses dias era pagar mico entre os amigos.

Aos sábados, o programa melhor era ir ao cinema, de preferência no centro da cidade, sessão das oito da noite.

A namorada se aprontava toda, o melhor vestido, brincos, pulseira, e o inseparável relógio no pulso. O rapaz, ora colocava seu único terno com gravata, ou então a camisa de manga longa, tecido banlon, que estava na moda, mas era quente, não transpirava. Os sapatos pretos, bem engraxados, tênis era só para jogar futebol de salão. Os cabelos tinham um corte preferencial que era chamado de Príncipe Danilo, quando se cortava só dos lados. Para os cabelos muito lisos se passava Glostora, uma brilhantina clara, sem cheiro que engomava e endurecia o cabelo.

Raspar a cabeça como hoje, naquela época o sujeito era considerado doido, corte de cabelo normal entre os abrigados em hospício.

O filme começa às 8 da noite e às 7:30 já tinha aquela fila enorme descendo a Rua Tamoios, quando o cinema era o cine Acaiaca na Av.Afonso Pena.

Rapaz que se prezasse tinha que comprar drops Dulcora e chocolate Sonho de Valsa para a namorada antes de entrar no cinema. Os baleiros vinham pela fila com um tabuleiro cheio de balas e chocolates e não tinha como escapar.

Dentro do cinema, à noite, o silêncio era completo. Todos esperando aquele momento solene e especial.

E esse ambiente especial era possível porque os frequentadores do cinema à note naquela época era basicamente de casais, namorados ou marido e mulher. Dificilmente um jovem ou adulto ia a uma sessão de cinema no sábado ou domingo à noite sozinho. Todos reparavam.

Depois que a exibição começava, com os trailers, os desenhos animados e o Jornal da Tela, com a luzes apagadas, quem chegava era conduzido até um lugar vago pelos Lanterninhas, funcionários do cinema que iluminava o lugar com uma lanterna de mão. Às vezes esse lanterninha pegava a gente roubando um beijo da namorada no escuro.

Quando se levava a moça ao cinema sem a companhia da irmã ou de uma vizinha amiga, era o sinal que o namoro estava ficando firme e poderia durar mais algum tempo.

Eram tempos bons, tempos inocentes, tempos que não voltam mais.

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