• Guilherme Cardoso

Um tapa na orelha no cine Pompeia


Aqui nesses vídeos de fins de semana, já contei sobre algumas atitudes absurdas promovidas pelo Edgard, cidadão folclórico e morador do Bairro da Pompeia em Belo Horizonte, até os anos 60.

Edgar era um jovem adulto, de uns 30 anos de idade, muito pobre e que morava com sua velha mãe em um barracão no aglomerado que começava na Rua Iara e terminava no início da R.Sílvio Romero onde eu morava.

Ele era semi analfabeto, estudou só dois anos do curso primário no Grupo Escolar João Alphonsus, quando ainda na R.Amazonita.

Apesar de sua ignorância extrema em determinadas situações, ele era muito amigo da meninada do bairro, se apresentando sempre como parceiro e defensor nosso nas brigas entre jovens de outros bairros, o que era comum, especialmente no mês de maio, quando havia as barraquinhas em frente a Matriz de N.S.do Rosário da Pompeia.

Já contei aqui quando o Edgar foi chamado para tirar um burro de dentro de um campo de futebol em que jogava o time da JUF e o Santos do Bairro Vera Cruz. Com um soco na testa do burro ele resolveu o problema.

O outro foi quando ele correu atrás do caminhão que levava jogadores e torcedores para um jogo no campo do Ferroviário no bairro do Horto, e alguém mexeu com ele na rua, fazendo com que ele subisse no caminhão e batesse em todo mundo.

Este novo fato inusitado e até esperado aconteceu no antigo cine Pompeia, onde hoje é o Supermercado Epa. Era um sábado à noite, cinema lotado, um grande faroeste da época, e antes do filme, durante os desenhos animados e o jornal, eis que aparece um sujeito feio, desdentado e roupas rasgadas puxando um cavalo, e alguém grita no meio da platéia: “ Olha o Edgar aí!”

A gargalhada foi geral, mas ninguém esperava que o Edgar estivesse naquela noite também assistindo aquele filme. E o pior aconteceu quando o filme terminou e todos começaram a sair do cinema. Lotação esgotada, mais de 300 pessoas naquela noite.

O Edgar, espumando a boca de raiva, olhos arregalados, estava na porta de saída e queria saber quem foi o engraçadinho que gritou o seu nome dentro cinema. Mas não tinha um jeito educado e eficiente de saber quem foi.

E o que ele fez?

Cada um dos jovens moradores do bairro da Pompeia que ele conhecia, ele foi simplesmente dando um tapão na orelha de cada um que saia, sem perguntar nada. E olha que um tapão do Edgar era como tomar um coice de mula na cara.

E durante uns 15 minutos foram mais de uma centena de jovens e até adultos que tomaram tapas na orelha, e sem reagir, e muitas vezes sem saber o motivo daquela agressão.

Mas, para o Edgar, foi o jeito inteligente de se vingar de quem tinha debochado dele. Como ninguém tinha a coragem de assumir a responsabilidade pela gozação, o modo correto encontrado pelo Edgar foi bater em todos que ele achava que poderia ser o autor .


Isto são casos e causos de tempos passados, tempos que não voltam mais. Temham um bom domingo.

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