• Guilherme Cardoso

Uma briga para não se esquecer


Nós éramos amigos de infância, e de verdade.Eu e Jesus Miranda, mais conhecido como Cem Gramas.

Pelo que me lembro, até os 12 anos de idade, fazíamos tudo juntos.

Jogávamos pelada na rua, jogo de botões nas varandas das casas, brincávamos de pegaladrão, mocinho e bandido e até de Tarzan, porque naquela época ainda havia mata fechada nas cidades. E não havia violência e os meninos podiam brincar na rua o dia todo, até mesmo à noite.

O bairro era a Pompeia, aqui em Belo Horizonte. Morávamos na mesma rua, uma casa em frente a outra, Rua Sílvio Romero.

A família dele era enorme, umas 10 pessoas, mãe viúva dona Maria, várias moças e rapazes adultos, meninos e meninas da minha idade.

Ao contrário, minha família era pequena, cinco pessoas, meu pai, também viúvo, eu, duas irmãs e um irmão.

As nossas famílias, Cardoso e Alvarenga Miranda trocavam coisas de comer que uma tinha e outra não. Empresta um sal aí, leva pó de café daqui, traz um pé de alface de lá, vai um pouco de açúcar de cá.

Dinheiro era pouco, pobreza era mas muita, havia solidariedade.

Eu e ele com a mesma idade, 12 anos, temperamento parecido. Estopim curto, brigávamos com os outros garotos do bairro por qualquer coisa.

Minha testa vivia cheia de pontos e esparadrapos de tanta pedrada nas brigas de rua.

No Pronto Socorro da rua dos Otoni eu era conhecido de todos os médicos e enfermeiras. Freguês de carteirinha. Semana sim, semana não estava eu no Pronto Socorro.

Às vezes, ainda estava com curativo na cabeça e lá vinha eu de novo sangrando, fruto de outra estripulia, de outra briga.

Um dia, nem me lembro por qual motivo, mas certamente havia algum, brigamos um com o outro. Os dois amigos e vizinhos.

Briga feia, de socos, pontapés e pedradas. Munição para a luta, tínhamos a vontade. Pedras e pó de brita nos montes da pedreira de dona Castorina, ao lado das nossas casas, na Rua Furquim., começo da Silvio Romero.

Minhas irmãs e os irmãos dele gritavam, tentavam chegar perto para apartar, mas tudo em vão.

A briga durou mais de meia hora hora e o resultado foram dentes quebrados, testas sangrando, almas lavadas de um lado e do outro.Sem vencedor.

Derrota mesmo foi em casa, castigo duro aplicado pelas irmãs,, surra de vara de marmelo.

Depois dessa briga, nunca mais conversamos um com outro. Crescemos indiferentes.

As famílias não. Continuaram vizinhas, amigas e companheiras. Eu e ele seguimos caminhos diferentes, morando no mesmo bairro.

Ele, ligado ao futebol, frequentava e jogava no Pompeia Futebol Clube.Eu, envolvido com os padres capuchinhos, também jogava futebol, no time da Juventude Franciscana, cinema, teatro, jornal e barraquinhas.

Não ficamos inimigos. O tempo passou, nós nos tornamos adultos, mas permanecemos indiferentes. Esporadicamente nos defrontavamos, na rua, em velórios de velhos amigos.

Como pessoas civilizadas e educadas, cumprimentávamos um ao outro com um sinal de cabeça apenas., Um gesto, não mais que duas palavras.

São fatos, histórias e casos e causos de Tempos que não voltam mais.

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