• Guilherme Cardoso

Uma Reforma Agrária na Pompeia


Até os anos 60, antes do período das revoluções em todo o mundo, aqui no Brasil, e especificamente no Bairro da Pompeia em Belo Horizonte, as coisas ainda eram muito tradicionais, rurais e artesanais.

Na verdade, boa parte da população de Belo Horizonte naquela época era constituída de pessoas e famílias vindas do interior de Minas. A cidade ainda tinha poucos anos de existência.

Em 1960, a cidade de BH tinha apenas 63 anos, idade bem inferior a muitos cidadãos que hoje vivem até 100 anos com saúde.

Naqueles tempos, era muito comum os parentes de 1º, 2º e 3º graus vierem a BH para fazerem tratamentos médicos no Hospital da Santa Casa de Misericórdia. Praticamente era o único hospital bem estruturado para atender diversas cirurgias e tratamentos. E totalmente de graça.

Lá em casa, na Pompeia, não passava um mês sem que algum parente distante chegasse de mala e tudo, às vezes com mulher e filhos para se hospedar e ficar esperando uma consulta agendada na Santa Casa ou uma cirurgia que muitas vezes demorava um ou dois meses para ser realizada.

E nossa casa, ou melhor o barracão que a gente morava na Rua Sílvio Romero tinha 4 cômodos, mas abrigava com carinho todo esse pessoal.

Meu pai, senhor Antenor Cardoso, era um homem muito solidário, mão aberta até demais. Só para ter uma ideia da sua generosidade extrema, o terreno onde estava a nossa moradia tinha uma extensão de quase 100 metros de fundo, ia da R.Sílvio Romero até a Rua Iara, e fazia divisa com a pedreira.

E naquela época, como hoje, havia muita pobreza, muitas famílias vinham do interior para BH à procura de trabalho ou para tratamento médico, procura o senhor Cardoso e ele ia dando um pedaço do terreno para o sujeito construir seu barraco.

Esse terreno era da Prefeitura, e a doação de pedaços de lotes se repetiu centenas de vezes, até chegar um dia, fins da década de 60, o terreno de um quarteirão todo povoado, como uma favela, um barraco ao lado do outro, e nós ficamos com apenas uns 200 metros de lote.

Para complicar, o vizinho Nô, um carvoeiro do lado invadiu boa parte desta área, expandiu seu negócio, deixando no lugar de uma rua que havia, somente um beco para os moradores transitarem.

Mesmo com esse aglomerado de barracos e moradores, na época o ambiente era bom, não havia a violência de hoje, todos tinham um grande respeito pelo meu pai e por nós.

Depois dque mudamos do local em 1969, o barraco abrigou o casal de amigos, colegas de JUF e atores das peças teatrais amadoras no salão paroquial, o José Luiz Ribeiro e a esposa Maristene, ainda hoje uma atriz atuante.

Foram tempos difíceis, pouca fartura, mas momentos de alegrias e saudades.

Sim, alegrias de infância e adolescência, das pelas de rua na Av.Alphonsus Guimarães, esquina com Rua Angaí, quando esta avenida ainda não se ligava com a Rua Fluorina.

Alegrias das festas nas casas de famílias, dos bailes nos finais de semana, dos jogos de botão, de bolinhas de gude, da Finca, do bodoque para matar pssarinhos, hoje não se pode, e depois da vivência entre os Capuchinhos, a JUF, o cine Pompeia e as peças teatrais até o final da década de 60.

E saudades também dos amigos, dos vizinhos da Av.Alphonsus Guimarães, o Celso, o Jonas, o Zezinho Babão, o Alexandre, a Marilda, Marília. Os vizinhos da R.Silvio Romero, senhor Manoel e esposa, beatos, mas que negavam água encanada para os vizinhos, a família Miranda, com aquele monte de gente, Jésus, Joãozinho, Miltinho, Antonio, Olga, Nenem, dona Maria.

São tempos bons, lembranças de coisas, lugares, gente e acontecimentos que estão na memória e podem desaparecer se não forem contados para novas gerações.

Como faço aqui, aos sábados e domingos.

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